Verdades de “La Palice”

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Com tanta coisa boa para ver e ouvir, há ainda assim coisas menos boas que conseguem sobressair e tomar conta de um simples e pacato dia. Nomeiam-se problemas do Mundo, apadrinhados por quem os apresenta, chegam quase sempre sozinhos de pé ligeiro e andar sorrateiro e de repente, com ar inocente, multiplicam-se rapidamente ao sabor da partilha que se segue por entre “pois é” e “tu já viste bem”, de quem se empolga e assiste também, com olhar vidrado e semblante preocupado.

De tantos que são, o tempo é curto para tanta atenção, e tivesse o dia mais horas e não haveria problemas do Mundo esquecidos nas rodas de conversas entre amigos, nos almoços de família, agora mais reduzidos, nas conversas do bairro, entre a farmácia e a mercearia, e nos queixumes do telefone, quando liga alguém que pergunta como estamos e parece mal dizer “está tudo bem”, porque afinal hoje até já se ouviu contar que morreu alguém.

A história dos nossos dias é escrita por todos nós e será lida um dia adiante por quem vier depois.  Vemos o Mundo com os olhos de todos, pelas conversas de café, pelas redes sociais, pelas séries, telenovelas e telejornais, e de cada vez que nos relacionamos, que partilhamos opiniões, em que destacamos os comportamentos dos bons ou dos vilões, fazemos a escolha de alimentar a tristeza, o medo e a insegurança ao invés da alegria, da tranquilidade e da esperança.

Falar por falar, dizer por dizer, vale pouco ou quase nada, se não ajudar a resolver. Obreiros da desordem, do desacato e da violência podemos ser todos sem nenhum talento especial, mas construtores de pontes de paz, de aproximação, de resolução de conflitos, de tolerância e respeito, só podem ser os que tiverem o talento de ser verdadeiros.

Se cada pessoa for para os outros aquilo que ela gostaria que os outros fossem para si, sabemos que a história dos nossos dias irá trazer muito mais sorrisos.

“La Palice” já morreu há 500 anos, mas permanece a sua homenagem para falar de verdades que já se conhecem. A pergunta que fica é quantos mais anos terão de passar para que cada ser humano consiga ter consciência do seu papel, da importância e da responsabilidade que tem para com o Mundo em que vivemos.

Com tanta coisa boa a acontecer, talvez valha a pena falar mais desses exemplos positivos, dar a conhecer essas histórias de vida, muitas delas de superação, que não são guiões de TV e trazem verdadeira inspiração. Alimentar a guerra com os exemplos onde se consegue viver em paz, alimentar a fome a repensar a forma como se come e como se produz, alimentar a pobreza pela ousadia de ter uma vida mais simples, menos abastada. Não são apenas os que já nos seguem que fazem a diferença, são sobretudo os que não seguiam ninguém e agora através de nós já conseguem ver mais além.

Porque um dia, será tempo de dizer adeus aos nossos filhos e a eles passar o testemunho de termos sidos humanos, que se possa olhar nos seus olhos e com verdade poder dizer que fizemos o melhor que pudemos e soubemos para cuidar de tudo o que nos rodeia, e com a esperança nesse mesmo olhar podermos sentir o momento da partida com a consciência tranquila de que não enganámos ninguém, nem a eles nem a nós.

Dia do Pai: isso é o que tu dizes!

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Artigo publicado online no P3 do jornal Público, a propósito do dia do Pai.


Esta é a expressão favorita do meu filho de sete anos, quando lhe digo alguma coisa que não quer ouvir ou, estando interessado, não está “nem aí” para o assunto naquele momento. Por norma sorrio e respondo “Isso é o que tu achas!”, numa troca de galhardetes que faz as delícias da irmã mais velha, se esta estiver a assistir.

Não sou fã do Dia do Pai, assim como não sou fã do Dia da Mãe, da mulher, da criança, e de todos os dias que pretendem homenagear alguma coisa que já foi abarbatada pelo mercado de consumo e cria em nós uma obrigação bastante absurda de gerar circulação de dinheiro.

Vivo o tempo em que os meus filhos petizes me dão presentes felizes feitos por eles, com algumas ideias trazidas da escola, mas muitas outras geradas pela imaginação própria, sempre estimulada por mim e pela mãe. Não precisamos de datas especiais para fazer esta troca de inspirações e durante todo o ano abrimos exposições e transformamos a casa numa galeria de arte multidimensional, onde expomos a nossa criatividade, cada vez mais ecológica porque a sustentabilidade é um real dever de todos nós.

Há um significado, sentimento e empenho diferentes quando se sente que estamos com a mão na massa e quando usamos a nossa arte e engenho para alegrar alguém que não é um estranho.

Nos tempos ímpares em que vivemos, com o distanciamento social a vigorar no mundo como comportamento regra, tenho curiosidade em pensar quantos pais e filhos irão ser a excepção e darão um abraço verdadeiramente sentido como nunca antes havia acontecido.

De pais que partiram sem a despedida dos seus filhos, numa solidão atroz, difícil de imaginar e sentir, a filhos que neste primeiro ano de pandemia passaram mais tempo com os pais do que com os professores, reforçando laços que naturalmente deviam estar sempre presentes, mas que foram forçados a acontecer em situações extremas, todas as famílias devem ter vivido situações excepcionais.

As salas de estar, se ainda não o eram, passaram a ser a divisão da casa onde tudo pode acontecer. Montar castelos e tendas, brincar às bonecas, jogar à bola, dormir a sesta, fazer educação física, estudar, trabalhar e, nalguns casos, até há quem tenho conseguido descansar, com ironia e sempre, quase sempre muito para lá do final do dia.

Neste dia, que muitos nomeiam “do Pai”, vão haver, por certo, muitas omissões, mas por mais justificações que se queiram dar, porque dizem que não se pode circular, que não se pode facilitar e beijar ou abraçar, só vão realmente falhar aqueles que não souberam ser e estar em todos os outros 364 dias do ano.

Ser pai ou filho não acontece uma vez no ano, e para quem vive ou viveu essa realidade, nem a saudade pode ajudar, porque não há memórias para recordar, histórias para contar, experiências para sentir, e a relação que um dia se criou e tinha tudo para ser forte e vingar, simplesmente esmoreceu e se calhar até morreu, sem que nenhum o conseguisse evitar.

O que vivo hoje com os meus filhos não consigo equiparar ao que fiz em tempos com o meu pai. Foi o que foi naquela época, nas circunstâncias da vida diferente que existia, e se não senti falta na altura foi porque também não conhecia.

Hoje aceito o que foi e aprendi com isso, tornando-me um pai que não precisa de esperar pelas datas especiais para dar e que abomina as convenções que querem rotular e formatar sentimentos de agradecimento. Para mim, dia do Pai é todos os dias porque essa é a minha realidade e qualquer dia é bom para abraçar, beijar e dizer que se ama o outro.

Que todos os pais e filhos possam sentir esta liberdade de expressão, libertar sentimentos sem medo do bicho papão, e que este seja o último ano em que sentiram obrigação de fazer um telefonema, uma visita ou uma compra, só para cumprir o calendário.

Violência não é solução

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Quando acontece alguma coisa que mexe connosco, que nos provoca reação, significa que estamos em plena interação com o Mundo que nos rodeia, e é por isso que existimos, para sentir e para ter emoções, pois doutra forma nem sequer estamos a viver.

Quando essa coisa acontece, damos-lhe importância e valor, e entre a coisa mais importante ou aquela que nem interessa falar, não há limites para os meios tons que se podem encontrar.

Cada pessoa tem a sua escala de valor e não adianta criar moldes para formatar o que não pode estar preso e é livre de ser e existir. Quando nos dizem que devemos dar mais ou menos importância a algo que nos aconteceu, é sempre o ponto de vista do outro que está em jogo. Na realidade não há esse dever ou obrigação e tudo é permitido na liberdade da nossa escolha, de querer sofrer a valer, ou fingir que não está a acontecer, ou pular de euforia e gritar como se o amanhã não vá ser dia.

Mas por vezes não estamos preparados para o que está a acontecer e somos surpreendidos, e mesmo assim queremos escolher, e seguimos outros que nos parecem acertados, que são para nós exemplos e até idolatrados.

A liberdade de sentir é um dos grandes desafios do ser humano.

Porque o Mundo organizado das sociedades desenvolvidas, não está preparado para as nossas investidas, não está assente em devaneios individuais, não alimenta sonhadores e liberais, e ninguém está para aturar o que eu sinto ou penso, simplesmente por tolerância, amor ou compreensão, porque afinal todos querem ser ouvidos e todos assumem como seu a direito de também gritar.

Geram-se confusões, misturam-se emoções e aproveitam-se os momentos para ir mais além do respeito que devia existir, escasseia a sobriedade e a moderação, e muitos perdem-se embriagados pelo ego e pelo desejo de afirmação, em comportamentos de revolta, gritos de ira, fomentando o caos e a destruição.

Perde-se o propósito que fez nascer a admiração, e os que alcançam deixam de querer seguir o exemplo e saem fora da manifestação. Tarde, porque o que ficou feito não vai mudar, e a violência das multidões demora a acalmar, a sociedade prossegue o seu progresso, e sem a maioria perceber continua a desmoronar.

Era bom que o Homem pudesse subir ao céu e ver o tamanho do Universo. Perceber como é pequeno, como um dilema ou euforia que lhe acontece tem por si pouco valor, e só quando se junta a milhões de outros dilemas ou euforias, de tantos outros Maneis e Marias, é que assume importância maior.

Tudo deve ser colocado em perspetiva a todo o sempre, sem dogmas ou padrões, porque a importância das coisas não passa de um momento de ficção que nasce no pensamento humano, gera sentimento e comportamento, e segue caminho quedando-se inerte no final do seu tempo.

Não se faça da liberdade de expressão um motivo para quezílias, guerra e violência. O respeito pelas escolhas de cada um tem de ser naturalmente o elemento de equilíbrio e harmonia de uma sociedade humanamente desenvolvida, e se for possível resgatar a essência do que quer dizer “Humanidade”, então é para aí que devemos caminhar, e um dia…, quando muitos pensarem assim, será possível materializar o nosso pensamento, e perceber que a importância das coisas é muito leve, tão leve que quase sempre pode ser levada pelo vento.

Por respeito à liberdade a violência nunca é solução.

O que vou dar hoje ao Mundo

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A certeza de que nada voltará a ser como foi é ruidosamente ensurdecedora aos ouvidos de todos os que não se escondem com medo de evoluir e que aceitam a natural, cíclica, e necessariamente normal, mudança que atravessamos no Mundo.

A premissa chave da condição humana, entenda-se liberdade, foi invadida e questionada numa geração de gente que vinha crescendo como se nada ou ninguém a pudesse alguma vez atentar.

Pela certeza das conquistas das gerações anteriores, de pessoas que lideraram revoluções e construíram fundações, de uma sociedade igualitária, na sua génese conceitual, e pelo constante desenvolvimento tecnológico, capaz de construir um mundo virtual outrora possível apenas em sonhos e hoje materializado em acesso generalizado a tudo e a todos, a qualquer coisa em qualquer parte, a todo o tempo em qualquer momento, criou-se a ilusão de um caminho que parecia ser o único possível e desejável aos olhos da progressista ambição humana.

Sabemos hoje, os que não dormem embalados pela mão castradora e controladora que ainda tenta juntar o rebanho e aprimorar os pastos, que a mudança de hábitos e comportamentos está mesmo aí à porta.

Para os que já se estavam a preparar, o estrondo global não causou particular mossa e o pretexto de fazer mais e melhor é agora mais evidente sem tanta crítica e julgamento aos olhos de muita gente.

Na reinvenção da condição humana e da sociedade global, recuperam-se agora, cada vez mais, hábitos e costumes antigos na certeza de que a ancestralidade é muito mais do que pó, e a experiência de outros seres humanos, com outras vidas, de iguais anseios de felicidade, bem-estar, harmonia e paz, é em si mesma uma possibilidade que agora devemos recuperar e aprimorar com um novo sentido.

A evolução não se faz apenas de coisas inovadoras, de gente que constantemente busca mais e mais, assumindo uma arrogância de se ser fruto desta época e de estar acima de todos os seres humanos que antes viveram e igualmente construíram e desenvolveram este Mundo.

A humildade é um valor que faz falta e que deve ser recuperado em cada um de nós, e é o ponto de partida para entendermos o nosso papel no Mundo, entendendo que somos o centro de tudo e ao mesmo tempo somos um quase nada, um simples grão no Universo, e se por sorte ou divindade tivemos oportunidade de aqui estar, então temos o dever de zelar pelo Todo e não sermos egocêntricos assumindo o quero, posso e mando em estrito benefício individual.

Se existem direitos humanos conquistados pelas democracias, pelas nações que emergiram das guerras, e existem desejos que se tornaram virais e hoje chegam a quase todos que querem ser iguais e não viver com menos do que os demais, também existem deveres humanos, deveres que nos incutem o respeito por todos, o respeito pelo meio onde vivemos, o respeito pela liberdade de escolha de cada um, e a obrigação de promovermos o equilíbrio e a harmonia do nosso gigante ecossistema.

Um dos desafios das mudanças que se avizinham é saber reconstruir a sociedade global com a harmonia destes direitos e deveres humanos, com a capacidade de cada um entender o seu papel no Todo, de assumir essa responsabilidade, e nas escolhas do dia-a-dia ter consciência plena de  que está a fazer parte da história da Humanidade, que é ator e espectador deste tempo, e que qualquer sociedade que venha a emergir só vai vingar se continuar a existir equilíbrio com o meio ambiente, se existir paz e uma cultura de não violência, e se existir respeito por nós e por tudo o que existe.

Que a cada novo dia, e cada nova entrada em cena a reflexão possa ser, “O que vou dar hoje ao Mundo para fazer dele um lugar melhor… ”