Dia do Pai: isso é o que tu dizes!

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Artigo publicado online no P3 do jornal Público, a propósito do dia do Pai.


Esta é a expressão favorita do meu filho de sete anos, quando lhe digo alguma coisa que não quer ouvir ou, estando interessado, não está “nem aí” para o assunto naquele momento. Por norma sorrio e respondo “Isso é o que tu achas!”, numa troca de galhardetes que faz as delícias da irmã mais velha, se esta estiver a assistir.

Não sou fã do Dia do Pai, assim como não sou fã do Dia da Mãe, da mulher, da criança, e de todos os dias que pretendem homenagear alguma coisa que já foi abarbatada pelo mercado de consumo e cria em nós uma obrigação bastante absurda de gerar circulação de dinheiro.

Vivo o tempo em que os meus filhos petizes me dão presentes felizes feitos por eles, com algumas ideias trazidas da escola, mas muitas outras geradas pela imaginação própria, sempre estimulada por mim e pela mãe. Não precisamos de datas especiais para fazer esta troca de inspirações e durante todo o ano abrimos exposições e transformamos a casa numa galeria de arte multidimensional, onde expomos a nossa criatividade, cada vez mais ecológica porque a sustentabilidade é um real dever de todos nós.

Há um significado, sentimento e empenho diferentes quando se sente que estamos com a mão na massa e quando usamos a nossa arte e engenho para alegrar alguém que não é um estranho.

Nos tempos ímpares em que vivemos, com o distanciamento social a vigorar no mundo como comportamento regra, tenho curiosidade em pensar quantos pais e filhos irão ser a excepção e darão um abraço verdadeiramente sentido como nunca antes havia acontecido.

De pais que partiram sem a despedida dos seus filhos, numa solidão atroz, difícil de imaginar e sentir, a filhos que neste primeiro ano de pandemia passaram mais tempo com os pais do que com os professores, reforçando laços que naturalmente deviam estar sempre presentes, mas que foram forçados a acontecer em situações extremas, todas as famílias devem ter vivido situações excepcionais.

As salas de estar, se ainda não o eram, passaram a ser a divisão da casa onde tudo pode acontecer. Montar castelos e tendas, brincar às bonecas, jogar à bola, dormir a sesta, fazer educação física, estudar, trabalhar e, nalguns casos, até há quem tenho conseguido descansar, com ironia e sempre, quase sempre muito para lá do final do dia.

Neste dia, que muitos nomeiam “do Pai”, vão haver, por certo, muitas omissões, mas por mais justificações que se queiram dar, porque dizem que não se pode circular, que não se pode facilitar e beijar ou abraçar, só vão realmente falhar aqueles que não souberam ser e estar em todos os outros 364 dias do ano.

Ser pai ou filho não acontece uma vez no ano, e para quem vive ou viveu essa realidade, nem a saudade pode ajudar, porque não há memórias para recordar, histórias para contar, experiências para sentir, e a relação que um dia se criou e tinha tudo para ser forte e vingar, simplesmente esmoreceu e se calhar até morreu, sem que nenhum o conseguisse evitar.

O que vivo hoje com os meus filhos não consigo equiparar ao que fiz em tempos com o meu pai. Foi o que foi naquela época, nas circunstâncias da vida diferente que existia, e se não senti falta na altura foi porque também não conhecia.

Hoje aceito o que foi e aprendi com isso, tornando-me um pai que não precisa de esperar pelas datas especiais para dar e que abomina as convenções que querem rotular e formatar sentimentos de agradecimento. Para mim, dia do Pai é todos os dias porque essa é a minha realidade e qualquer dia é bom para abraçar, beijar e dizer que se ama o outro.

Que todos os pais e filhos possam sentir esta liberdade de expressão, libertar sentimentos sem medo do bicho papão, e que este seja o último ano em que sentiram obrigação de fazer um telefonema, uma visita ou uma compra, só para cumprir o calendário.

Violência não é solução

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Quando acontece alguma coisa que mexe connosco, que nos provoca reação, significa que estamos em plena interação com o Mundo que nos rodeia, e é por isso que existimos, para sentir e para ter emoções, pois doutra forma nem sequer estamos a viver.

Quando essa coisa acontece, damos-lhe importância e valor, e entre a coisa mais importante ou aquela que nem interessa falar, não há limites para os meios tons que se podem encontrar.

Cada pessoa tem a sua escala de valor e não adianta criar moldes para formatar o que não pode estar preso e é livre de ser e existir. Quando nos dizem que devemos dar mais ou menos importância a algo que nos aconteceu, é sempre o ponto de vista do outro que está em jogo. Na realidade não há esse dever ou obrigação e tudo é permitido na liberdade da nossa escolha, de querer sofrer a valer, ou fingir que não está a acontecer, ou pular de euforia e gritar como se o amanhã não vá ser dia.

Mas por vezes não estamos preparados para o que está a acontecer e somos surpreendidos, e mesmo assim queremos escolher, e seguimos outros que nos parecem acertados, que são para nós exemplos e até idolatrados.

A liberdade de sentir é um dos grandes desafios do ser humano.

Porque o Mundo organizado das sociedades desenvolvidas, não está preparado para as nossas investidas, não está assente em devaneios individuais, não alimenta sonhadores e liberais, e ninguém está para aturar o que eu sinto ou penso, simplesmente por tolerância, amor ou compreensão, porque afinal todos querem ser ouvidos e todos assumem como seu a direito de também gritar.

Geram-se confusões, misturam-se emoções e aproveitam-se os momentos para ir mais além do respeito que devia existir, escasseia a sobriedade e a moderação, e muitos perdem-se embriagados pelo ego e pelo desejo de afirmação, em comportamentos de revolta, gritos de ira, fomentando o caos e a destruição.

Perde-se o propósito que fez nascer a admiração, e os que alcançam deixam de querer seguir o exemplo e saem fora da manifestação. Tarde, porque o que ficou feito não vai mudar, e a violência das multidões demora a acalmar, a sociedade prossegue o seu progresso, e sem a maioria perceber continua a desmoronar.

Era bom que o Homem pudesse subir ao céu e ver o tamanho do Universo. Perceber como é pequeno, como um dilema ou euforia que lhe acontece tem por si pouco valor, e só quando se junta a milhões de outros dilemas ou euforias, de tantos outros Maneis e Marias, é que assume importância maior.

Tudo deve ser colocado em perspetiva a todo o sempre, sem dogmas ou padrões, porque a importância das coisas não passa de um momento de ficção que nasce no pensamento humano, gera sentimento e comportamento, e segue caminho quedando-se inerte no final do seu tempo.

Não se faça da liberdade de expressão um motivo para quezílias, guerra e violência. O respeito pelas escolhas de cada um tem de ser naturalmente o elemento de equilíbrio e harmonia de uma sociedade humanamente desenvolvida, e se for possível resgatar a essência do que quer dizer “Humanidade”, então é para aí que devemos caminhar, e um dia…, quando muitos pensarem assim, será possível materializar o nosso pensamento, e perceber que a importância das coisas é muito leve, tão leve que quase sempre pode ser levada pelo vento.

Por respeito à liberdade a violência nunca é solução.

O que vou dar hoje ao Mundo

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A certeza de que nada voltará a ser como foi é ruidosamente ensurdecedora aos ouvidos de todos os que não se escondem com medo de evoluir e que aceitam a natural, cíclica, e necessariamente normal, mudança que atravessamos no Mundo.

A premissa chave da condição humana, entenda-se liberdade, foi invadida e questionada numa geração de gente que vinha crescendo como se nada ou ninguém a pudesse alguma vez atentar.

Pela certeza das conquistas das gerações anteriores, de pessoas que lideraram revoluções e construíram fundações, de uma sociedade igualitária, na sua génese conceitual, e pelo constante desenvolvimento tecnológico, capaz de construir um mundo virtual outrora possível apenas em sonhos e hoje materializado em acesso generalizado a tudo e a todos, a qualquer coisa em qualquer parte, a todo o tempo em qualquer momento, criou-se a ilusão de um caminho que parecia ser o único possível e desejável aos olhos da progressista ambição humana.

Sabemos hoje, os que não dormem embalados pela mão castradora e controladora que ainda tenta juntar o rebanho e aprimorar os pastos, que a mudança de hábitos e comportamentos está mesmo aí à porta.

Para os que já se estavam a preparar, o estrondo global não causou particular mossa e o pretexto de fazer mais e melhor é agora mais evidente sem tanta crítica e julgamento aos olhos de muita gente.

Na reinvenção da condição humana e da sociedade global, recuperam-se agora, cada vez mais, hábitos e costumes antigos na certeza de que a ancestralidade é muito mais do que pó, e a experiência de outros seres humanos, com outras vidas, de iguais anseios de felicidade, bem-estar, harmonia e paz, é em si mesma uma possibilidade que agora devemos recuperar e aprimorar com um novo sentido.

A evolução não se faz apenas de coisas inovadoras, de gente que constantemente busca mais e mais, assumindo uma arrogância de se ser fruto desta época e de estar acima de todos os seres humanos que antes viveram e igualmente construíram e desenvolveram este Mundo.

A humildade é um valor que faz falta e que deve ser recuperado em cada um de nós, e é o ponto de partida para entendermos o nosso papel no Mundo, entendendo que somos o centro de tudo e ao mesmo tempo somos um quase nada, um simples grão no Universo, e se por sorte ou divindade tivemos oportunidade de aqui estar, então temos o dever de zelar pelo Todo e não sermos egocêntricos assumindo o quero, posso e mando em estrito benefício individual.

Se existem direitos humanos conquistados pelas democracias, pelas nações que emergiram das guerras, e existem desejos que se tornaram virais e hoje chegam a quase todos que querem ser iguais e não viver com menos do que os demais, também existem deveres humanos, deveres que nos incutem o respeito por todos, o respeito pelo meio onde vivemos, o respeito pela liberdade de escolha de cada um, e a obrigação de promovermos o equilíbrio e a harmonia do nosso gigante ecossistema.

Um dos desafios das mudanças que se avizinham é saber reconstruir a sociedade global com a harmonia destes direitos e deveres humanos, com a capacidade de cada um entender o seu papel no Todo, de assumir essa responsabilidade, e nas escolhas do dia-a-dia ter consciência plena de  que está a fazer parte da história da Humanidade, que é ator e espectador deste tempo, e que qualquer sociedade que venha a emergir só vai vingar se continuar a existir equilíbrio com o meio ambiente, se existir paz e uma cultura de não violência, e se existir respeito por nós e por tudo o que existe.

Que a cada novo dia, e cada nova entrada em cena a reflexão possa ser, “O que vou dar hoje ao Mundo para fazer dele um lugar melhor… ”

Antes que chegue o Carnaval!

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Já passaram alguns dias da euforia do ano novo, mas ainda restam ânimos de fantasia por entre conversas interiores, em sofás ou cobertores, daquelas que ninguém ouve, que são sempre secretas e ninguém vai nunca saber, até ao dia em que se morre e no velório, os que honram o falecido, falam delas abertamente, sem receio de julgamento, porque já ninguém pode questionar a inconfidência.

Nas pedras frias e brilhantes das calçadas há poucos sonhos já moribundos porque ainda é tempo de acreditar que será desta vez que tudo será diferente, que seja o que for vai mesmo acontecer, que dê por onde der aquilo vai mesmo chegar, e que venha quem vier nada o poderá parar, como se fosse agora a primeira vez de todas e nada do que ficou para trás importa.

Na verdade, tudo o que resistiu ao passar dos anos pode nos primeiros dias de janeiro existir sem parecer idiotice, porque é suposto existir este tempo de se preparar um ano que está a começar, de planear decisões, de arrumar salões, de esvaziar gavetões e colar pedaços de corações partidos por entre amizades às avessas, amores às travessas e tanta energia desperdiçada em vão para tentar elevar o ego ao mastro mais alto.

O olhar confiante do ano novo ainda perdura nestes dias, com a secreta ilusão que está a ver o que nunca viu antes, como se o Mundo fosse um local totalmente novo, sedento da presença daquele ser astuto, que sabe o que vai fazer a seguir com toda a imensidão de possibilidades que fervilham no pensamento.

Mas daqui a pouco chegará o final do mês e por certo haverá mais sonhos desfeitos, porque há sempre quem se deixe levar pela desilusão da primeira porta fechada, da primeira barreira erguida e não se lembre que faz parte do sabor da conquista, ter saboreado primeiro a desilusão, mesmo que seja amarga como o limão, afinal o que é um doce para quem nunca conheceu a amargura, ou a coragem para quem só conhece a bravura, ou demência para quem sempre viveu na loucura…

Com o passar do tempo mais pessoas se vão deixar levar e mais sonhos vai ficar desfeitos pelo chão, onde serão pisados e esquecidos porque não tiveram quem acreditasse neles, quem soubesse encarar a verdade de que é preciso por vezes largar e deixar ir para que outros se possam aproximar, como quando um barco aporta e deixa a sua carga e no regresso vazio sabe que um dia mais tarde irá voltar, com nova carga, para nova gente, num novo dia.

Antes que o chegue Carnaval, é o tempo ficcionado que a maioria das pessoas consegue resistir com ânimos de euforia pelo ano novo, porque de forma tola se deixou formatar pelas convenções, pelas regras e padrões, pelas modas e manias e por tudo o que existe que castra e aprisiona os nossos dias, sem perceber que qualquer altura do ano é boa para deixar o que já não serve, para procurar o que sempre quis encontrar, para trocar o certo pelo incerto e o tédio pela alegria de voar.

Qualquer momento é o certo para ir atrás do que parece fugir mas que sempre está ali bem perto se quisermos dar esse passo de consciência tranquila e sem expectativa, como quem compra uma rifa e não sabe o que lhe vai calhar, e aceita o que recebe, que leva para casa, ou dá, ou até deixa ficar.

Que alguém acorde os que ainda dormem aconchegados ao calendário do tempo oficial, para que saibam que podem hoje mesmo começar a reescrever as conversas do vosso velório.

Que nesse dia, os vossos amigos relembrem com saudade as alegrias, as conquistas, os desafios e os contratempos, a irreverência, a teimosia e a inovação, mas também as tristezas e desilusões que adornaram tantos corações e todas as aventuras que conquistaram o direito à eternidade e não se perderam nas calçadas frias, espezinhadas pela mendicidade de personagens encaraçadas, com nome mas sem história para contar, que no final da vida poucos recordam e não deixam saudades em nenhum lugar.

Hoje e sempre podemos reinventar quem somos, basta acreditar e continuar a tentar, mesmo que a Terra continue a girar e o Carnaval esteja a chegar…