Antes que chegue o Carnaval!

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Já passaram alguns dias da euforia do ano novo, mas ainda restam ânimos de fantasia por entre conversas interiores, em sofás ou cobertores, daquelas que ninguém ouve, que são sempre secretas e ninguém vai nunca saber, até ao dia em que se morre e no velório, os que honram o falecido, falam delas abertamente, sem receio de julgamento, porque já ninguém pode questionar a inconfidência.

Nas pedras frias e brilhantes das calçadas há poucos sonhos já moribundos porque ainda é tempo de acreditar que será desta vez que tudo será diferente, que seja o que for vai mesmo acontecer, que dê por onde der aquilo vai mesmo chegar, e que venha quem vier nada o poderá parar, como se fosse agora a primeira vez de todas e nada do que ficou para trás importa.

Na verdade, tudo o que resistiu ao passar dos anos pode nos primeiros dias de janeiro existir sem parecer idiotice, porque é suposto existir este tempo de se preparar um ano que está a começar, de planear decisões, de arrumar salões, de esvaziar gavetões e colar pedaços de corações partidos por entre amizades às avessas, amores às travessas e tanta energia desperdiçada em vão para tentar elevar o ego ao mastro mais alto.

O olhar confiante do ano novo ainda perdura nestes dias, com a secreta ilusão que está a ver o que nunca viu antes, como se o Mundo fosse um local totalmente novo, sedento da presença daquele ser astuto, que sabe o que vai fazer a seguir com toda a imensidão de possibilidades que fervilham no pensamento.

Mas daqui a pouco chegará o final do mês e por certo haverá mais sonhos desfeitos, porque há sempre quem se deixe levar pela desilusão da primeira porta fechada, da primeira barreira erguida e não se lembre que faz parte do sabor da conquista, ter saboreado primeiro a desilusão, mesmo que seja amarga como o limão, afinal o que é um doce para quem nunca conheceu a amargura, ou a coragem para quem só conhece a bravura, ou demência para quem sempre viveu na loucura…

Com o passar do tempo mais pessoas se vão deixar levar e mais sonhos vai ficar desfeitos pelo chão, onde serão pisados e esquecidos porque não tiveram quem acreditasse neles, quem soubesse encarar a verdade de que é preciso por vezes largar e deixar ir para que outros se possam aproximar, como quando um barco aporta e deixa a sua carga e no regresso vazio sabe que um dia mais tarde irá voltar, com nova carga, para nova gente, num novo dia.

Antes que o chegue Carnaval, é o tempo ficcionado que a maioria das pessoas consegue resistir com ânimos de euforia pelo ano novo, porque de forma tola se deixou formatar pelas convenções, pelas regras e padrões, pelas modas e manias e por tudo o que existe que castra e aprisiona os nossos dias, sem perceber que qualquer altura do ano é boa para deixar o que já não serve, para procurar o que sempre quis encontrar, para trocar o certo pelo incerto e o tédio pela alegria de voar.

Qualquer momento é o certo para ir atrás do que parece fugir mas que sempre está ali bem perto se quisermos dar esse passo de consciência tranquila e sem expectativa, como quem compra uma rifa e não sabe o que lhe vai calhar, e aceita o que recebe, que leva para casa, ou dá, ou até deixa ficar.

Que alguém acorde os que ainda dormem aconchegados ao calendário do tempo oficial, para que saibam que podem hoje mesmo começar a reescrever as conversas do vosso velório.

Que nesse dia, os vossos amigos relembrem com saudade as alegrias, as conquistas, os desafios e os contratempos, a irreverência, a teimosia e a inovação, mas também as tristezas e desilusões que adornaram tantos corações e todas as aventuras que conquistaram o direito à eternidade e não se perderam nas calçadas frias, espezinhadas pela mendicidade de personagens encaraçadas, com nome mas sem história para contar, que no final da vida poucos recordam e não deixam saudades em nenhum lugar.

Hoje e sempre podemos reinventar quem somos, basta acreditar e continuar a tentar, mesmo que a Terra continue a girar e o Carnaval esteja a chegar…

Dia da Independência

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Comemora-se hoje o dia da Independência! Dizem que remonta ao ano de 1640 em que Portugal se libertou de um período de 60 anos de reinado espanhol que não terá deixado saudades.

Também por estes dias, há 102 anos atrás, passavam 3 semanas do dia 11 de novembro em que foi assinado o armistício, assinalando o fim da primeira grande guerra Mundial, em que depois de quatro anos de chacina mútua, os vários países envolvidos decidiram parar e deixar as hostilidades de lado.

Já antes tinham existido tantas grandes guerras que talvez só a presunção da época justifique este título pomposo em detrimento de muitos outros acontecimentos de devastação global que a história nos dá a conhecer e que mereciam igual honra.

Hoje, saudamos todos estes momentos de paz, de regresso à tranquilidade, ao desejo de poder viver em harmonia com os demais, aos sonhos de desenvolvimento, de progresso e convivência, mas ainda assim continuamos a viver em clima de guerra…, de armas, bombas e carnificina sangrenta em muitos locais, de ódio, revolta e falta de respeito em tantos outros, de simples maledicência e egocentrismo exacerbado em quase toda a parte.

Se houver uma altura no tempo, uma data, um dia, um momento em que seria dada a oportunidade aos seres humanos de se preparem para uma evolução, para uma transformação, para a possibilidade de acederem a novas experiências, de poderem valorizar outras coisas, de verdadeiramente se alinharem com a sua essência humana, este poderia ser esse dia.

Somos generosos quando atravessamos dificuldades, perante agruras e privações, e cada um de nós sobressai quando ao nosso lado alguém colapsa e pede ajuda. Tem sido assim tantas e tantas vezes que já deveríamos ter aprendido um pouco melhor a lição que se repete, e continuamente se repete em si mesma, sem grande ganho de maturidade.

As guerras, as lutas, a revolta criam novas formas de vida que muitas vezes estavam sedentas de oportunidade de se mostrarem e que não souberem aparecer de outra forma.

A humanidade, a maior caraterística que nos distingue de todos os outros seres, existe em nós nativamente e está sempre pronta para liderar as nossas ações e podemos quiçá lamentar que seja preciso o extremo oposto ao que ela representa para que ela possa intermitentemente brilhar.

Somos biliões de pessoas, como julgamos nunca terem existido antes, num mesmo espaço e tempo, e se, porventura fosse eu criador da vida maior do Universo e tivesse de escolher quando e onde aconteceria esse momento de viragem, iria decidir pelos tempos de hoje… porque já não há muitas lições para aprender sobre as guerras, sobre a violência e o ódio, e tudo o mais que todos já conhecem de cor.

O que falta pois é aprender algo de novo sobre a vida em paz, com maior compreensão, maior aceitação pela diferença, pela liberdade, pelo mesmo direito à oportunidade de sermos felizes em harmonia com tudo o que nos rodeia sem que tenhamos de nos alinhar com as regras definidas por quem anseia pelo poder, por quem ainda não consegue alcançar o significado da expressão “vive e deixa viver”, por quem batalha por ideais que maltratam todos os que tentam sobreviver e não são imortais…

se eles soubessem, se pelo menos eles soubessem que pode ser diferente.

Ainda sou do temo da escrita manual, de saber valorar cada palavra que se escreve pelo significado que pode ter e não pelas dezenas de edições que posso mais tarde fazer,

Sou do tempo em que a leitura se fazia em silêncio, em que as vozes ocas eram menos ruidosas, quando hoje de tão simples que parece ser se torna cada vez mais difícil escrever, deixar fluir o pensamento puro, sabendo que poucos têm realmente tempo para ler e entender…

Hoje comemora-se a independência mas não podemos esquecer a liberdade e a sobrevivência, aquelas que dependem de cada um de nós, aquelas que queremos garantir aos que amamos e fazem parte do nosso mundo e por quem tantos, antes de nós, lutaram ao ponto de perder a vida prematuramente.

A todos os que sabem dar valor ao que a vida lhes dá, a maior homenagem que podemos fazer ao fim da guerra é promover a paz e defender a esperança de que não sejam precisas muitas mais memórias como estas para relembrar o que a vida já nos ensinou, porque se tivermos verdadeira paixão pela vida, o que ainda vai chegar é o melhor que pode ser e o que ficou para trás, por lá deve continuar onde já se findou.

Sou o que sou e serei sempre eu, como todos os outros, na busca solitária pela minha paz e pelo equilíbrio que me ajuda a erguer e a bater asas para poder livremente voar.

As nossas ações têm consequências

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As nossas ações têm consequências.

A forma como observamos o mundo que nos rodeia, assente nas crenças e nos valores que defendemos, que aprendemos a respeitar, que seguimos muitas vezes sem questionar, e um dia iremos ensinar, condiciona o caminho que todos os dias vamos fazendo, nas dificuldades e desafios que ultrapassamos, nas benesses e ofertas que saudamos, e nem sempre partilhamos, tudo é fruto, tudo resulta das escolhas que se fazem a toda a hora. Isto é um facto.

Pouco importa se acreditamos numa orquestração natural divina ou se pensamos que tudo é obra do acaso, porque em qualquer das situações é pura magia ver a forma como a vida acontece, e mesmo de olhos fechados e braços cruzados o mundo à nossa volta não para de fervilhar e as coisas não deixam de acontecer.

Tudo é relativo. Não como frase feita de ânimo leve, mas porque realmente tudo é vivido e sentido a cada instante em função das circunstâncias daquele momento, daquele local, daquele contexto, daquele tempo, das pessoas envolvidas e do seu estado de alma, da rebelião ou da calma, e de tudo o que em conjunto tornou aquela situação única e irrepetível, que não será de novo possível, igual ao que já foi. Isto também é um facto.

Se não soubermos entender e aceitar estas condições será mais difícil viver.

O valor e a importância que damos a tudo o que nos rodeia, o que nos vêm à ideia, ao que se cruza connosco trazido pelo vento, seja em pensamento ou materialização, pessoas que amamos ou então não, bens materiais e coisas banais, circunstâncias, experiências e vivências, tudo é momentâneo e num segundo muda o significado que tem para nós.

A liberdade de fazer o que me apetece é real, se eu souber que ela existe para todos de igual forma, e se sei exigir o respeito pelas minhas escolhas tenho de saber dar o respeito às escolhas dos outros. Naturalmente tudo isto se mistura e daí resultam consequências que direta ou indiretamente me afetam e impactam também outros ao meu redor.

O que nos marca é aquilo que escolhemos dar valor, é onde decidimos gastar a nossa energia, as nossas palavras, onde deixamos ir a nossa atenção e a intensidade com que se vive um instante deve dosear a aceitação e a busca da compreensão.

O segredo, que não é mais do que sabedoria do comum ancião, é entender que há sempre o outro lado da nossa primeira impressão, que há outra forma de ver a situação, e que tudo o que possa existir nesse acontecimento está ao nosso alcance para ser decifrado e interpretado, para dar algum sentido ao nosso estado, de observador e ao mesmo tempo ator, e que gostando ou não do que acabou de acontecer, esse instante não vai desaparecer do mapa do tempo, que já lá vai e não volta, e tudo o que vai ficar é a memória que guardamos dele enquanto o quisermos recordar.

Em tempos de incerteza tão vincada, qualquer a verdade de hoje pode amanhã ser questionada e as lutas travadas irão perder o sentido, se alguma vez o tiveram, porque faltou visão e compreensão de que tudo é uma questão de opinião, e que os dogmas, tal como o resto, estão também sempre em evolução.

Em bebés, enquanto pequenos seres humanos, levámos muitos meses a aprender a falar e a andar, porém durante todo esse tempo nunca deixámos de sentir, de observar e com isso evoluir… Essa é pois a nossa essência de sempre… saber ser “um humano”, saber sentir, saber observar e saber evoluir.

Fazer as nossas escolhas, com a nossa consciência, pela nossa cabeça, assumindo a responsabilidade pelas consequências que geramos e acolhendo todas as outras que nos afetam a todos, é uma condição de vida em sociedade que irá ditar grande parte do futuro da nossa Humanidade.

Orgulho em Ti

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No último dia de vida dela não soube dizer-lhe tudo aquilo que sentia por ela.

É quase sempre assim que acontece. Estivemos juntos a celebrar o primeiro dia do ano de 2014 e, por entre algumas conversas que tivemos, recordo que brinquei com ela gracejando por algumas palavras que se lhe sumiam e pela dificuldade em ouvir tudo o que eu dizia. Coisas normais que a vida traz com o desgaste de um corpo experiente, maduro e vivido, que se vinha preparando para se entregar.

Já noite, na hora de ir embora, fiz-lhe o “cafuné” habitual, no seu cabelo curto cinzento claro e despedi-me com um beijo e um até amanhã… que nunca chegou a ser.

Quando se sabe o porquê das coisas é mais fácil aceitar o que acontece.

A permanente evolução do universo e de todos nós, seres humanos, e outros seres que habitam o espaço é feita de ciclos, de alternâncias e mudanças que trazem sempre algo de novo. São entradas e saídas de cena, onde nos bastidores se muda o guarda-roupa, se trocam guiões e personagens e se preparam novos atos desta peça infinita em que todos participamos a seu tempo e hora. Sem cabeças de cartaz todos são importantes, e as experiências vividas em palco trazem mais sabedoria a cada nova interpretação que acumulamos na bagagem.

O nascer de novo acontece sempre, sem qualquer dúvida, após o ato final que encerra um ciclo, e basta-nos observar à nossa volta o que finda e renasce para perceber que não somos diferentes. Mas o tempo universal não se conta em dias nem anos, e quando será possível estar de novo em cena, e quem sabe reconhecer alguém por detrás de outras vestes e voz diferente, é algo que não se consegue saber.

Os sentimentos que guardamos são pedras preciosas que preservamos como o nosso maior tesouro, e se forem realmente verdadeiros enriquecem a nossa vida com o brilho, com os olhares cúmplices, com as expressões, com o toque e tudo aquilo que amámos em alguém e agora saudosamente sentimos falta.

Aceitar o que é como é e saber seguir em frente é a homenagem que faz sentido prestar a quem brilhou connosco em palco e nos soube contagiar. Um dia também nós iremos sair de cena e nos bastidores, onde muitos estarão a trocar de roupa, saberemos se vamos integrar o novo elenco que está a entrar ou se ficaremos ainda a aguardar nos camarotes, observando a energia e a azafama que polvilha e transborda do palco da vida, aguardando a nossa próxima oportunidade.

Não serás agora, apenas, a minha madrinha, a mulher que conheci, e não sei se estás perto ou longe de mim, mas para todo o sempre estás na minha arca de tesouros por tudo aquilo que foste comigo, pelo amor incondicional que soubeste dar e pelo que juntos fomos capazes de ser.

Orgulho gigante em ter contracenado contigo neste Universo!