Hoje não vi morrer ninguém

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Devem ser tempos bons os que vivemos, com mais harmonia, saúde e alegria pois já não me lembro da última vez que vi morrer alguém.

Não é que esteja muito afetado por isso, ou até preocupado, mas venho-me habituando desde há algum tempo a todos os dias ver morrer alguém.

É estranho não ouvir falar de sangue e violência, de estar sentado e não ver as pessoas em fuga descontrolada, por entre ruínas e explosões, na histeria de gritos e pedidos de ajuda moldados pelas jornalísticas edições, enquanto seguro a cerveja ainda agradavelmente gelada.

Ver os rios de gente perturbada, imaginar o sofrimento que podiam estar a sentir, cerrar os lábios, respirar fundo e por respeito ficar em silêncio apenas a ouvir. Sonhos desfeitos de famílias felizes, pais que perderem filhos petizes, órfãos de pai ou mãe que ficaram sós sem mais ninguém, pessoas de carne e osso como eu que têm o direito a uma vida digna, com paz, harmonia e liberdade, tal como eu também na minha cidade.

Empurrados de um lado para o outro ninguém os quer aceitar, é muita gente dizem sempre alguns como se a quantidade fosse medida, fosse regra a aplicar. Porque a terra é de todos e não é de ninguém, as fronteiras humanas criam desdém e ilusão, de que uns podem e outros não, quando nos esquecemos tão depressa que por aqui onde pisamos já passaram muitos mais, antepassados do homem e outros animais, e se todos pensaram assim, um dia isso esfumou-se em pó, quando a vida terminou, porque na morte somos todos iguais.

Nem a fome que matava tanta gente parece ainda existir. Fico melhor por saber que afinal está a acontecer a bondade entre as nações, que as ajudas chegaram às populações e que estamos a construir novas fundações, para erguer pilares de igualdade, justiça e fraternidade para as pessoas de todas as raças e religiões, com um verdadeiro exemplo para as novas gerações de que o Mundo pode ser ainda melhor.

Penso que também já não haja doenças mortais para além do vírus do momento presente em todo o lado, que chegou e não quer ser deportado. Veio para reinar, assumir o seu lugar, e só ele parece existir, sem rival à altura que o possa destronar está forte na luta contra o Homem que teima em resistir e querer ficar.

Nos dias gordos via várias pessoas diferentes a morrer. Era um exercício difícil ter de escolher onde centrar a minha compaixão. Crimes horrendos de despeito, falta de amor ou traição, macabros por vezes, levados ao pico da indignação, acidentes fatais, quedas abruptas, viagens que começam felizes e se revelam mortais, e miséria, muita miséria também, olhar em redor na minha casa e ver o que tantas pessoas não têm.

Mas afinal que dia é hoje? Será especial? Que data digna de apontamento e festejo se apossou da minha pacata vida sem que eu saiba?

Tenho percorrido os mesmos caminhos, as mesmas ruas, apesar de tudo menos que o habitual, mas quando falo com os outros vivos do costume já não temos assunto nas mortes e nas tragédias o que não é normal. Se ninguém vir os outros morrer quem é que vai falar deles? Se eu morrer quem é que vai falar de mim? Será que honra se vai perder no esquecimento de quem partiu e os que ficam vão continuar a viver tranquilamente, a ser gente feliz sem direito à indignação?

Até o respeito já parece existir como valor fundamental na sociedade, e atrevo-me a dizer que já não há exploração, violação, ou comportamento imoral neste momento feliz da Humanidade. É como se de um sonho elaborado um novo Mundo fosse traçado e no novo amanhecer tudo ganhou forma, vida, e está mesmo a acontecer.

Herdei de vidas passadas a esperança de um dia poder sentir-me assim, consciente que estamos a aprender a evoluir, cultivando o gosto pela beleza de viver, saber estar e saber ser o reflexo do que queremos sentir. O bem-estar agrada a todos sem exceção e é sempre o ponto de retorno após qualquer turbilhão.

Começo a pensar se haverá algum problema geral porque nada disto é mesmo normal. Será que é muito grave e vai tudo acabar?

De repente volta a luz e ilumina-se o pensamento. Abro os olhos e vejo onde estou, a televisão acendeu-se e a internet regressou. Cinco dias depois voltaram os telejornais e as redes sociais, os programas da vida, a imaginação, o faz de conta, o pode ser que eu também consiga, e de novo o Mundo que eu conhecia apareceu. Estão lá as mortes, a guerra, a miséria e a violência, e a oportunidade de à distância voltarmos a ser solidários sem ter vivido a consequência. Continua a nascer gente, a haver amor, exemplos positivos que ninguém quer saber, vendem pouco, tem pouco sangue e não dão lucro para fazer render.

Espero mais um pouco para ver se pelo menos o respeito é real, pelo menos isso, mas percebo pouco tempo depois que não porque ainda há abusos, agressões e tantos exemplos de comportamento irracional.

Desligo tudo em meu redor e volto a fechar os olhos para retomar o sonho que venho construindo há algum tempo. Abraço os meus filhos e faço-os sorrir, ouço a voz dos que me amam e deixo-me ficar, no silêncio abraço a minha família com o olhar e todos os que conheço, tenho estima e sei que quero continuar a ver. Alimento a energia que me faz sentir vivo e merecedor de paz, acredito em mim e que serei capaz de unificar o meu Mundo, a minha gente, aquela que mexe comigo e a quem não sou indiferente, pelo exemplo, pela atitude, pela honestidade de aceitar que não estamos sós, e apesar da voz, somos parte silenciosa da infinita e magnífica universalidade.

Ainda é estranho para muitos que nem conseguem aquietar o pensamento, mas num dia como hoje, com sol e calor de verão, na praia ou campo com uma bebida fresca na mão, todos juntos, estaremos em sintonia, a poder viver este momento.

Filhos, a vossa vida não será melhor que a minha

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As próximas gerações de humanos não terão vidas melhores que as nossas.

A geração dos meus filhos como adultos e dos meus netos como adolescentes não será melhor do que esta por mais que esse seja o meu desejo e a minha vontade proferida aos céus em noites de melancolia. As gerações futuras não terão mais capacidades do que as nossas porque estamos a privá-los à nascença de um crescimento saudável, livre e natural, de poderem dar asas ao seu potencial, de serem autênticos e darem o seu melhor, de serem gente capaz de dar as mãos sem reservas de status, género, credo ou cor.

É reconhecido globalmente por toda a ciência moderna que estamos a degradar a qualidade do ar que respiramos, da comida que ingerimos, da água que bebemos e de todo o ecossistema que nos rodeia, que estamos a contaminar o nosso corpo com doenças limitadoras e o nosso cérebro com crenças opressoras, de um mundo acelerado, globalizado e viral, numa espiral de autodestruição que se propaga geneticamente e culturalmente pelos que se seguirão, onde os químicos e outras substâncias artificiais estão presentes de forma invasora em todos os setores da vida humana como nunca estiveram antes, sem que o beneficio possa ser expectavelmente superior aos malefícios que já se conhecem, mas que não são ainda representativos das causas que um dia retratarão o grande declínio da atual Humanidade.

O progresso, defendido como inevitável e necessário para o desenvolvimento que hoje temos, tem trazido às sociedades modernas mais problemas globais do que soluções locais centradas nas necessidades especificas do individuo, do grupo e da comunidade local. Sozinho, ele ignora por completo a particularidade e a diferença de tantas e tantas populações, culturas e regiões, aniquila os direitos básicos vitais de tantas formas de existência, promove a vida formatada em série etiquetada, e deixa à mercê da loucura a hipótese de haver gente saudável, tranquila e equilibrada.

A ilusão da tecnologia moderna faz-nos esquecer por momentos tudo o que existe fora dessa realidade virtual consumida por quase todos, onde o mundo real não perdeu o seu valor e, mais do que nunca, pela dimensão das populações atuais e necessário aumento do seu impacto total, há hoje em dia problemas de fome, miséria, exploração, violência, desigualdade, injustiça, poluição, devastação e tantos outros como não seria esperado em resultado das mentes brilhantes e da força de trabalho das gerações que nos últimos 80 anos alavancaram e concretizaram o maior salto que conseguimos documentar na história do Homem.

Nada disto aconteceu de forma deliberada por vontade determinada porque ninguém conseguia antever tamanhas consequências. Terão havido rumores, profecias ou teorias que indicavam algumas possibilidades que hoje se verificam mas a maioria das pessoas que viveram nestes tempos, e ainda hoje vivem, não tiveram noção do que estava a acontecer enquanto viviam. Sobreviver e procurar ter uma vida melhor sempre foi o objetivo de todos, onde me incluo também, porque assim o determinou a cultura e educação que recebemos da sociedade moderna e progressista em que crescemos, onde o bem-estar individual passou a assumir o papel central na vida de cada um em prejuízo do equilíbrio pelo bem-estar do conjunto.

Qualquer ser vivo luta todos os dias pela mesma necessidade que nós de sobreviver, de encontrar a melhor vida possível, de viver o máximo que o seu potencial lhe permite. Isto acontece com todos os insetos, animais, plantas e de uma forma geral todos cumprem o seu desígnio pela lei do mais forte, pela seleção natural das espécies (como referiu Darwin) em que sobrevivem os mais preparados.

Acontece que o ser humano não é um ser vivo qualquer. No planeta Terra representa o ser vivo mais capaz, o mais dotado, o que se desenvolveu física, intelectual e espiritualmente mais do que qualquer outro ser vivo que seja do nosso conhecimento. Sem grande dificuldade o homem de hoje assumiu o seu papel dominante e controla hoje tudo o que o rodeia sendo capaz de impactar todo e qualquer ambiente e os que lá habitam e sobrevivem.

Porém, esta capacidade tem sido explorada sobretudo de forma inconsciente porque neste papel de evolução e desenvolvimento os valores essenciais do conjunto e do equilíbrio do Todo que nos rodeia foi esquecido e perdeu-se por entre a ilusão da posse material, da conquista, da exploração do “tal” progresso a todo o custo. Esta forma de estar na vida atual é o que está a provocar consequências nas gerações futuras que estão à partida boicotadas pelos nossos erros e falhanços de evolução no desenvolvimento das sociedades humanas, e quando se defende que estamos a viver uma época de ouro da Humanidade significa que estamos a ficar cegos pelo brilho e ofuscados pela riqueza aparente do momento, sem perceber que o declínio está a chegar e será o que se segue ao auge, ao pico, como em todos os ciclos universais que se conhecem e do qual as civilizações outrora existentes e atualmente extintas são exemplos reais do que se diz.

Construir, fazer crescer e fomentar em todo o Mundo grandes centros urbanos, megalópoles com mais de 10 milhões de habitantes (tantos quantos os habitantes de Portugal) e difundir a ideia que é ali que a vida atinge o seu auge, que as oportunidades acontecem, que a felicidade se encontra a cada esquina e tudo existe para servir e proporcionar a excelência da nossa existência, é mentir descaradamente aos jovens que crescem e seguem os nossos exemplos e seguem atrás dos ideais que lhes vendemos, é destruir qualquer possibilidade de existência não conforme com o modelo quando se isolam propositadamente os que não aceitam esta forma de vida e se ostracizam os que pensam por si só, é explorar continuamente a ingenuidade dos mais distraídos, dos que levam a vida de forma simples e honesta, submissa mas honrada, dos que confiam em quem governa, lidera e orienta, porque se assume que a bondade que há em todos os seres humanos prevalece como valor maior que regula as leis, as normas, as teorias, os hábitos e as ações globais destes aglomerados de gente, onde vivem pessoas influentes, idolatrados como ícones da raça humana, a nossa raça humana que se desenvolveu como nunca antes e que controla hoje a vida na Terra e sonha em conquistar o espaço cósmico.

Tristeza e desilusão é o que se sente quando acordamos um dia e percebemos que tudo isto está a ruir. Para alguns nunca existiu, para outros estava previsto que ia ser assim, e muitos ainda não perceberam que o sonho está a terminar.

Um vírus, um simples vírus que já existia na natureza mas resolveu aparecer dentro de nós mostrou-nos a fragilidade deste modelo de vida global assente em números e quantidades, em ajuntamentos, em torres, em cercas, em códigos de barras, em cópias baratas e downloads ilegais, em falta de originalidade nas ações, nos sonhos e claro nos valores morais. Já se disse muito sobre isto e não vale a pena aprofundar, mas é certo que ainda mais vêm por aí e um dia se irá falar.

Importante é talvez pensar que nada do que existe na nossa sociedade global é assim tão perfeito que mereça a pena lutar incessantemente por ele. Talvez o conhecimento e a partilha de informação sejam exceção, ou existam outras coisas que quero ter na mão, tudo o que é bom e sei que deve vingar, tudo o que herdámos da nossa essência e nos faz saber gostar e apreciar, tudo o que rima e nasce da paixão, do amor da compreensão, do respeito, do dar valor e do saber que não se deve infligir miséria e dor, tudo o que existe na singela natureza, como na pequena criança e na sua beleza, a inocência, a curiosidade e a confiança, aquilo que não precisa de palavras para se expressar e que tem a sua energia de vida num simples gesto de apreço ou no sorriso de um olhar.

Como em quase tudo o que se conhece da vida simples que se leva, há sempre oportunidades que surgem nos momentos certos para a mudança que desejávamos em nós, na nossa personalidade, na nossa roupa, na casa, no emprego ou trabalho que temos, no carro, mota ou bicicleta e naturalmente na sociedade em que vivemos.

Foi assim que chegámos aos dias de hoje e é assim que iremos evoluir e construir o futuro. Não somos mais do que um grupo de pessoas a querer viver o melhor momento a que têm direito, mas devemos pensar que não estamos sós e que atrás de nós vem gente a quem devemos acima de tudo o nosso maior e sincero respeito.

Ser e Amar um Pai

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Todos os dias são bons para amar um pai.

Presto assim homenagem a todos os que foram e já cá não estão, aos que vivem e dão a mão, aos que um dia ainda serão e a todos os que têm medo de falhar mas seguem em frente e procuram amar com o coração.

Ser pai é amar, gostar, cuidar, admirar, ensinar, ouvir e saber escutar, brincar e estar presente, e aprender… aprender a ser gente, a ser feliz e a sonhar, a acreditar que os nossos filhos podem fazer um Mundo melhor.

Com o meu pai aprendo a aceitar que tudo tem o seu lugar. Um coração maior que o meu faz-me crer que podemos viver sem maldade e violência, que é preciso ter calma e paciência, e que tudo se resolve quando tiver de ser quando for hora de acontecer.

No silêncio das palavras cresci muito sem conversar e levei tempo a reconhecer como o poderia vir a amar. Nem tudo se aprende a dizer e muito ensina sem falar, quando se dão exemplos de atitudes e valores que devemos sempre preservar. Hoje amo sem saber como expressar esta admiração, pela honestidade e bondade que lhe disparam a emoção, e de tanto que havia para herdar recebi o melhor que podia ter, coração de manteiga doce e refinada para suavemente derreter.

Dos que foram e já não são admiro alguns que conheci, dedicados e apaixonados, outros loucos e desvairados, que amavam com distanciamento social, porque os tempos eram diferentes e a vida custava mais, por entre o trabalho árduo e o descanso merecido, nem sempre os filhos tinham direito ao sorriso dos seus pais.

Acaso a morte aconteceu previamente anunciada, por causa de tudo ou vinda de nada, e no leito de uma cama passa a vida a ser contada… Porque um abraço não se pede quando se tem vontade de dar, de braços abertos e coração rendido muitos voltaram a amar. Com o calor que já não sentem, mas que aquece a noite fria, adormeceram para sempre em paz, serenidade e harmonia.

Do cosmos universal onde me vejo chegar um dia, chegaram também certa vez, duas estrelas que não conhecia. Em momentos diferentes mas que tiveram tudo de igual, quando olhei os meus filhos senti-me forte e imortal. Suave e doce derreti em lágrimas de alegria e paixão, de braços firmes e coração apertado, um novo mundo cabia nos dedos da minha mão, cheio de esperança e iluminado. Segurei cada um perto de mim e deixei vibrar solta a emoção, explodi mil vezes num segundo e inundei o céu com um clarão.

Foi o amor de um pai a nascer e expandir-se pelo infinito Universo num momento contínuo que não mais terá o seu fim, porquanto houver vida e morte, haverá sempre, mas sempre, amor de pai em mim.

Uma vez pai, pai para sempre, porque é um amor que cresce todos os dias, de tristezas e alegrias, amuos e euforias, que faz brotar novos rebentos, que devem ser cuidados e regados, protegidos e admirados, em muitos, mas muitos momentos.

Porque as palavras são fortes mas nem sempre conseguem dizer, e o que se explica é difícil de entender, que possam todos os pais sentir força e determinação para vencer, os medos do dia-a-dia, as incertezas do amanhã, os perigos, as discussões, as fúrias e os palavrões, porque é do exemplo que se ensina como se pode aprender e os filhos precisam de ver para poder crescer, que os filhos que partilham com os pais, não só a casa mas os valores morais, possam ser homens e mulheres capazes de honrar e amar aquilo que é de todos.

Será sempre assim, enquanto houver vida e morte e tudo o resto aqui ficar, seguem connosco a consciência e o que com ela conseguirmos alcançar.

Hoje acordei com vontade de ser criança

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Hoje acordei com vontade de ser criança! Sem horário e sem medo de me atrasar, abrir os olhos e sentir que continuo a sonhar, com um mundo só meu de brincadeira, que parece não ter fim nas tontices e asneira, onde todos somos felizes à nossa maneira, e os amigos de quem tanto gosto me fazem rir até doer a barriga, e continuam até que eu já não consiga, e no fim me deixam ali estar… ainda a rir, ainda a sonhar.

É na natureza – onde sei que sou livre, onde posso correr, saltar e até voar, onde tantas vezes caio sem verdadeiramente me aleijar, e a imaginação sem fim está sempre a magicar – que eu gosto mesmo de brincar.

A roupa suja não tem importância, são as marcas da infância, e o cabelo despenteado vive solto sem estar amarrado. A relva verde e fresquinha parece boa para comer, sem pratos, talheres ou toalha a condizer, e o bicho papão não existe quando o vou procurar, atrás dos arbustos, escondido, onde ele poderia estar.

Ali só vejo pequenos amigos, atarefados na sua vidinha, sem se importarem comigo, com o João ou com a Clarinha. Às vezes gosto de os observar, espiar e até seguir, ver o que fazem, onde vão e saber para onde levam o pequeno pedaço de pão… A Maria grita muito alto como se lhe estivessem a bater, é uma tonta, e assusta os pássaros que queriam adormecer.

Os adultos estão na sesta e outros a marinar, mas eu e os meus amigos estamos prontos para atacar. Golpeamos o ar em pinos perfeitos, uns mais tortos porque nem todos têm jeito, mas o que conta é a intenção e até a Diana já rebola no chão.

A mãe não vê porque está a conversar, e o André foi buscar água ao repuxo para se poder lavar. Fica pior, parece um borrão, quanto mais eu esfrego mais suja fica a minha mão, e a Diana começa a chorar… mas não dura mais que um segundo porque está lá o Rafael, que é o seu irmão, que a abraça e aconchega o coração.

A amizade é bonita e merece ser partilhada, não estar guardada dentro de nós e ser solta para crescer e ter voz, inundar o ar à nossa volta e chegar a toda a gente, homens, mulheres, crianças, sem deixar ninguém indiferente.

Com ela vem o respeito, o amor-próprio e a liberdade, saber até onde se pode ir e não forçar ninguém contra a vontade, dar a mão e ajudar quem precisa, porque as lutas são de brincadeira e quando acabam ninguém mais valoriza.

Hoje acordei com vontade de ser criança e de saber que não existe fome, guerra e violência, porque os adultos se uniram e acabaram com essa crueldade, são agora mais justos e unidos e todos juntos denominam-se Humanidade.

A Terra onde vivo é a mesma onde sonho e a cada noite uma criança anseia o novo dia, pela esperança de brincar e crescer com alegria, com amor por tudo o que existe e vive ao nosso lado, ela merece a minha entrega, dedicação, o meu legado.

Que a inspiração nos ajude e a sabedoria nos dê alento, porque as crianças são o melhor do Mundo e não merecem tormento, que a nossa consciência possa evoluir para podermos fazer sempre melhor, pelo que já fui e ainda sou, pelo que me lembro e não mudou, quero ser criança eternamente, hoje e até sempre…