Antes que a morte nos separe

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Artigo publicado no Público em 17 outubro de 2020.

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“Obrigado por não desistires de mim!” Quando um amigo teu te envia esta mensagem ficas a pensar o que é que fizeste de tão fantástico. É verdade que já não nos falávamos há algum tempo, como acontece cada vez mais com a maioria das pessoas, porque afinal dizem que não há tempo. Mas muitas vezes há, só que escolhemos fazer outras coisas em vez de ligar ou escrever a quem gostamos e até um sentimento de timidez nos traz a desculpa de não incomodar quem deve estar muito ocupado. Como se escrever a saber de alguém seja uma coisa menor, sem importância, que não faz falta para dar ânimo e alegria.

O que fiz não foi tão extraordinário assim, apenas aproveitei algum tempo para usar o WhatsApp e escrever: “Olá, como é que estás? Espero que esteja tudo bem contigo. Comigo tudo ok. Quando puderes dá notícias… Beijinho” e pus um smile no final, como se lá estivesse de verdade.

Nos tempos que se vivem, e não se culpe a pandemia, um encontro cara a cara, olhos nos olhos é cada vez mais raro. Porque a agenda não encaixa, porque a distância ainda é grande, porque se calhar não vale assim tanto o esforço para ir ver alguém e se a timidez já ataca quando se quer escrever, imagine-se o que ela faz quando pensamos com ousadia.

A idade traz realmente maturidade e não há outra forma de aprender a não ser passar por lá. Não sei ao certo onde fica o ponto de viragem, e porventura não é o mesmo para todos, mas há uma altura na vida em que percebemos que todas as pessoas que fomos conhecendo ao longo da vida são importantes.

Se é para falar todos os dias, de mês a mês, ou só no aniversário, se calhar nunca sabemos ao certo e vamos mudando essa opinião ao sabor do vento que sopra. Mas acredito que aquelas que permanecem são as que de alguma forma cuidamos sem impor regras, dando o que realmente só nós temos, a nossa presença, atenção e disponibilidade, quando for caso disso, sem cobrar, apenas sabendo estar e aceitar a dinâmica que a vida cria nas pessoas.

Respondi pouco tempo depois à mensagem que recebi, dizendo que é sempre bom ter notícias dela e saber que estava bem e, entre promessas de um encontro para breve e outras palavras simpáticas, despedi-me com mais um boneco amarelo a sorrir.

Entretanto, imaginei que se alguns dias depois recebesse a notícia que essa pessoa tinha morrido, iria por certo ter tempo para ir ao funeral. Afinal, era minha amiga, já não falávamos há alguns meses, mas tínhamos trocado umas mensagens naquela semana. Iria recordar o quanto gostava das conversas que tínhamos e a esperança de um encontro para breve estaria agora transformada em tristeza e saudade.

“Pena que não tivesse havido tempo” seria por certo um tema de conversa no reencontro de outros amigos no velório dela. As oportunidades surgem para fazer alguma coisa com elas, e aqueles momentos de confraternização seriam o momento de redenção de pessoas sempre muito ocupadas.

Ao voltar para casa, com a alma distante a acompanhar quem partiu, provavelmente teria vontade chorar. Sem gravidade ou sofrimento atroz, apenas porque sim, porque estava triste. À noite, antes de dormir, ficaria a pensar que está tudo nas nossas mãos, a todo o tempo, e que a atenção que damos a quem gostamos é um momento único que nunca sabemos se voltaremos a repetir.

Quero aprender contigo!

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Muito se tem escrito por aí sobre empresas que fecham, serviços que acabam, trabalhadores que perdem os seus empregos e situações difíceis que muitas famílias atravessam.

Gente que vive insegurança e medo do futuro que ninguém conhece e que agora admitem que afinal é incerto, como sempre foi, mas que se vendeu que poderia ser controlado por um sistema perfeito baseado numa teia gigante de contactos e relações, de poderes instalados, de distrações, de tudo e mais um pouco que mexe no coração das gentes e das populações.

Muito se tem falado sobre os problemas e a desigualdade, sempre presentes na história da Humanidade, mas que hoje, talvez fruto da globalização da informação, parece estar em todo o lado, quando antigamente não se sabia, e coração que não vê nem sente não sofre agonia, mas hoje todos podemos ver com maior ou menor distorção o que está a acontecer, e hoje o Mundo parece mais assustador do que talvez realmente possa ser.

Muito se tem feito para criar a vontade de mudar o que não está bem e seguir em frente com o que se tem, desde logo à mão e perto de nós o poder da nossa voz, e por isso hoje homenageio todos os que servem de exemplo aos outros, pela atitude e pela ousadia e porque é importante assumir a coragem de poder falhar para depois se poder vingar.

Assim é a vida que conheço, em que me ensinaram a tentar, porque é preciso cair e tropeçar para se saber andar, e as quedas da bicicleta ajudam a equilibrar e a pedalar com mais confiança até um dia conseguir guiar sem uma das mãos, e assim poder agarrar alguém que levo comigo aos trambolhões, e juntos em amizade, amor, parceria ou formal cooperação, continuar estrada fora a conhecer Mundo até que a destreza atingida, permita guiar sem condução e de braços abertos ser levado pelo vento da esperança, da bonança, em abraços e sorrisos, numa aventura que dura, dura, e dura.

Hoje aplaudo todos os que têm ideias positivas, que se recusam a ser consumidos e se erguem em pontas dos pés para ver outras perspetivas.

Pessoas simples da vida, homens, mulheres e até crianças em pose de crescidos, empreendedores, chefes de família, mães-galinhas, sonhadores, bloguistas, empresários, mecânicos e professores. Gente com visão, alguns sem cursos ou formação, que não se conformam quando não estão bem e que usam a dádiva da imaginação para congeminar novos sonhos e aspirações.

Alguns sabem quem são, que os admiro e podem agora estar a sorrir, outros talvez não, e haverá tantos outros que não conheço ainda, mas a quem um dia terei a oportunidade de apertar a mão.

Obrigado a todos pela lição de vida, por mostrarem que há outro lado na história do aparente fatalismo, que há uma alternativa ao medo e que se chama otimismo, e que sempre que alguma coisa termina outra pode logo ali começar, em ideias, em planos, em vontade de continuar.

Sou admirador confesso de tudo o que traz boa energia, do que me alegra o dia e do que me faz estar em paz, equilíbrio e harmonia e sou eu que decido sempre com o que me vou importar.

Aos que se perdem ainda nos meandros da desilusão digo apenas que procurem outra frequência e vibração, que por todo o lado há gente a fazer diferente pronta a ser exemplo para quem precisa primeiro ver e só depois faz acontecer, porque tudo está sempre a evoluir, assim nasceu o Universo, a Terra, o ser humano, e o que conseguimos ao longo da história construir.

Sou um pai como tantos, que se assume herói no mundo dos filhos, e de capa voadora defendo que se passe esperança aos mais novos, aos que olham para nós como referência e exemplo de sabedoria, que nos enchem de perguntas todo o dia, e no convívio familiar, nos momentos de lazer ou refeição, saber falar do que é bonito, do que traz alegria ao coração, das coisas boas que se fazem por aí e elevam a moral e dão inspiração.

Educar é uma tarefa exigente mas que todos podemos ultrapassar e se há pessoas que dão alegria e cor à nossa vida, então ensinemos os nossos filhos a pintar.

Mãe é mãe, mas pai há só um

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Artigo publicado no Publico em 29 de agosto de 2020

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Costumo dizer a brincar que vivi os partos da minha mulher com todas as dores, agonias e esticões e, por solidariedade, até senti a subida do leite, os mamilos a latejar e as dolorosas contracções.

Mais do que aprender a mudar fraldas e dar o biberão quando o bebé queria comer, ser pai fez de mim um despertador excepcional onde nada acontecia sem eu saber. Movido pelo sentimento de profunda admiração e gratidão pela mulher que deu à luz os nossos filhos, apoderou-se de mim um dever sem fim, uma obrigação de ser um verdadeiro pai, de estar atento ao que se passava, zelar por tudo e por todos os que amava, de ser o primeiro a chegar se fosse preciso ir e de acampar no chão se fosse para lá ficar.

A meio da noite, a minha filha tossia e eu aparecia, num pestanejar, a observar, e pegava se fosse preciso pegar, e beijava se fosse para acalmar, e de novo a punha a dormir depois de embalar. Pouco tempo depois, ela suspirava ou gemia e de novo eu surgia, para ver se estava tudo bem, se era mau jeito do corpo ou da roupa comprada pela mãe, e acomodava, beijava, e de novo adormecia e voltava ao quarto a sonambular.

Foram assim os primeiros meses e de manhã à pergunta sacramental – ‘Então dormiste bem?’ – eu respondia que sim, e com ensonado entusiasmo sempre contava o que se tinha passado e ela sempre perguntava por que não a tinha chamado. Eu respondia que não era preciso, que estava tudo controlado, que ela devia descansar para poder amamentar e que eu não me importava de dormir menos e não me custava levantar.

Depois de nove meses de transformação do corpo, numa experiência que um homem jamais poderá conhecer. Depois de um parto com dores, sofrimento e emoção, de ver nascer o seu rebento e de o ouvir chorar, de o nutrir com amor e de o alimentar, de sentir o corpo a latejar a querer relaxar, de amamentar com o corpo sempre a querer voltar ao lugar. Depois de toda esta entrega e abnegação, às quais sou grato de coração, um homem só pode ter compreensão, dar espaço e tempo para ela se restabelecer, para que se volte a sentir bem, a sentir-se de novo mulher.

Entretanto a minha filha cresceu e o irmão chegou e o despertador excepcional regressou. Retomei a sonambular com a mesma entrega e dedicação, com o mesmo amor e carinho pelo gesto que sabia ser o correcto enquanto pai, marido e homem.

Foram anos de sensibilidade apurada em que de manhã a pergunta já nem se colocava – ‘Sim, eu dormi bem’. Por entre os inumeráveis momentos de passeio entre o nosso quarto e o dos miúdos, ocupado em aconchegar, acalmar, levar à casa de banho, matar a sede ou simplesmente observar, em silêncio, porque nos murmúrios que quase nunca conseguia entender arriscava a sorte de receber o abraço sonâmbulo mais caloroso e apertado que o mundo podia ter.

Ser pai mudou a minha vida quando percebi que este sentimento de protecção, de dever cuidar, zelar, estar perto e acompanhar, de saber aprender para depois poder ensinar, iria ficar comigo para todo o sempre, e que nada do que o dinheiro possa comprar se aproxima daquilo que a minha filha ou meu filho me podem vir a dar.

Mãe é mãe e amor de mãe há só um, mas pai é pai e como esse amor também não há nenhum. Não se comparam, não competem entre si, nem se devem substituir. São diferentes no que os distingue, mas iguais na essência, na razão da existência e no que os liga e une para sempre como afortunados pela dádiva que receberam.

A todos os pais noviços e aos outros que em breve se irão alistar, felicito-os pela oportunidade que vão ter, de ver a vossa vida mudar e de poderem ser o exemplo para gente que vos vai seguir e amar, que verá em vocês um herói, alguém para idolatrar. Não receiem o fracasso nem se assustem com o que ouvem por aí dizer. Sigam o vosso instinto, aquele que alguns tolos dizem que é coisa de mulher, e façam sempre o vosso melhor, porque como pai terão a oportunidade de estar onde é preciso, de acompanhar, participar, ver crescer e sobretudo amar os vossos filhos.

O dia em que renasci para a vida, aos 40 anos

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Crónica publicada no jornal Público, no dia 18/08/2020.

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Se querem realmente mudar, não tenham medo de o fazer. Não são precisos muitos planos, tudo estudado ao pormenor sem deixar espaço ao imprevisto, porque da surpresa vem muitas vezes a alegria

Habituamo-nos a viver a vida que temos e levamos tempo a perceber se nos falta alguma coisa. Somos educados para lutar, para não desistir e procurar um lugar onde esteja a nossa felicidade, com alguém ao nosso lado, uma casa para morar, um emprego para fazer carreira, amigos, diversão e um dia os filhos à nossa beira.

Este é modelo de vida mais vendido em gerações de pais preocupados com o futuro dos seus filhos, que não lhes falte nada e que possam assim desfrutar de tudo o que a vida tem para oferecer. Muitos fazem das tripas coração e dão o que lhes custa a ganhar só para ajudar os filhos em crescimento, para terem o seu primeiro pé-de-meia, o seu primeiro sustento.

Depois, os filhos escolhem o que querem fazer e muitos realmente não desapontam os pais, seguem os seus conselhos e de outros antigos e tornam-se os modelos de vida ideais. Mas a vida não é formatada, a vida não segue nenhum padrão, a vida acontece a cada um como tem de acontecer e alguns percebem um dia que não é assim que querem viver.

Eu renasci para a vida no dia em que percebi o que me faltava fazer, queria voltar a acreditar em mim e nos sonhos que um dia deixei ficar para trás: ser escritor, artista, inspirar os outros, um sonhador. Acreditar que podemos fazer mais do que me ensinaram que podia fazer porque só assim me fazia sentido realmente viver.

Tinha 40 anos, hoje tenho mais cinco, e resolvi abdicar do que tinha, estatuto, carreira e uma profissão que na verdade não era minha. Louco para alguns, corajoso para os demais, segui em frente na minha crença de ser um exemplo, de inspirar os meus filhos e quem sabe até os meus pais.

A relação estremeceu e não conseguiu manter-se firme e continuar, mas longe dos dramas que se ouvem por aí contar – fomos amigos até no terminar. Hoje continuamos solidários na educação de quem brotou de nós, num modelo de família diferente, onde conseguimos estar, ser felizes, prevalece o respeito, um carinho abissal e todos têm a sua voz.

Na senda do meu sonho, vou fazendo o que sempre quis fazer, faço a arte que inspira, escrevo tudo o que transpira e embrenho-me no que sinto que é de valor. Procuro estar em paz comigo, ser uno, autêntico, verdadeiro, o meu melhor amigo e confio na vida e nas oportunidades que ela me dá.

Por isso posso afirmar, a todos os que querem realmente mudar, que não tenham medo de o fazer, não são precisos muitos planos, tudo estudado ao pormenor sem deixar espaço ao imprevisto, porque da surpresa vêm muitas vezes a oportunidade e a alegria de poder fazer um dia aquilo que sempre sonhaste e não ousaste acreditar.

É um percurso longo que não termina com a primeira mudança porque assim que começas a mexer na tua vida, fecham-se portas aqui, abrem-se outras ali e tudo o que vês crescer pode realmente dar esperança de ser um novo caminho que vais seguir, de algo que vais experimentar. Mas não tentes colocar tudo de novo numa caixa, de lhe pôr um rótulo e de a fechar.

Se algum dia renasceres para a vida como eu renasci, aprende com o passado e não tentes copiar a vida de ninguém. Faz as tuas escolhas, conscientes, responsáveis, mas ousadas e loucas como sempre quiseste fazer. Rasga as check-lists que conheces e constrói a tua vida para seres um exemplo para alguém.

Um dia, quando chegar aquela hora fatídica, todos sem excepção vamos olhar para trás, pensar no que fizemos da vida, do que fomos capazes. No meu caso, agora faço todos os dias a vida que quero e sinto vontade de fazer, por mim e pelos que amo. Quero inspirar. Se um dia percebi que queria renascer para vida, fazer mais, melhor e diferente, hoje sei que consigo fazer por isso, dando tempo e espaço à vida para acontecer, sendo honesto com a minha alma e o meu ser, observando tudo o que me rodeia e aceitando esta forma livre de viver.