Mãe é mãe, mas pai há só um

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Artigo publicado no Publico em 29 de agosto de 2020

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Costumo dizer a brincar que vivi os partos da minha mulher com todas as dores, agonias e esticões e, por solidariedade, até senti a subida do leite, os mamilos a latejar e as dolorosas contracções.

Mais do que aprender a mudar fraldas e dar o biberão quando o bebé queria comer, ser pai fez de mim um despertador excepcional onde nada acontecia sem eu saber. Movido pelo sentimento de profunda admiração e gratidão pela mulher que deu à luz os nossos filhos, apoderou-se de mim um dever sem fim, uma obrigação de ser um verdadeiro pai, de estar atento ao que se passava, zelar por tudo e por todos os que amava, de ser o primeiro a chegar se fosse preciso ir e de acampar no chão se fosse para lá ficar.

A meio da noite, a minha filha tossia e eu aparecia, num pestanejar, a observar, e pegava se fosse preciso pegar, e beijava se fosse para acalmar, e de novo a punha a dormir depois de embalar. Pouco tempo depois, ela suspirava ou gemia e de novo eu surgia, para ver se estava tudo bem, se era mau jeito do corpo ou da roupa comprada pela mãe, e acomodava, beijava, e de novo adormecia e voltava ao quarto a sonambular.

Foram assim os primeiros meses e de manhã à pergunta sacramental – ‘Então dormiste bem?’ – eu respondia que sim, e com ensonado entusiasmo sempre contava o que se tinha passado e ela sempre perguntava por que não a tinha chamado. Eu respondia que não era preciso, que estava tudo controlado, que ela devia descansar para poder amamentar e que eu não me importava de dormir menos e não me custava levantar.

Depois de nove meses de transformação do corpo, numa experiência que um homem jamais poderá conhecer. Depois de um parto com dores, sofrimento e emoção, de ver nascer o seu rebento e de o ouvir chorar, de o nutrir com amor e de o alimentar, de sentir o corpo a latejar a querer relaxar, de amamentar com o corpo sempre a querer voltar ao lugar. Depois de toda esta entrega e abnegação, às quais sou grato de coração, um homem só pode ter compreensão, dar espaço e tempo para ela se restabelecer, para que se volte a sentir bem, a sentir-se de novo mulher.

Entretanto a minha filha cresceu e o irmão chegou e o despertador excepcional regressou. Retomei a sonambular com a mesma entrega e dedicação, com o mesmo amor e carinho pelo gesto que sabia ser o correcto enquanto pai, marido e homem.

Foram anos de sensibilidade apurada em que de manhã a pergunta já nem se colocava – ‘Sim, eu dormi bem’. Por entre os inumeráveis momentos de passeio entre o nosso quarto e o dos miúdos, ocupado em aconchegar, acalmar, levar à casa de banho, matar a sede ou simplesmente observar, em silêncio, porque nos murmúrios que quase nunca conseguia entender arriscava a sorte de receber o abraço sonâmbulo mais caloroso e apertado que o mundo podia ter.

Ser pai mudou a minha vida quando percebi que este sentimento de protecção, de dever cuidar, zelar, estar perto e acompanhar, de saber aprender para depois poder ensinar, iria ficar comigo para todo o sempre, e que nada do que o dinheiro possa comprar se aproxima daquilo que a minha filha ou meu filho me podem vir a dar.

Mãe é mãe e amor de mãe há só um, mas pai é pai e como esse amor também não há nenhum. Não se comparam, não competem entre si, nem se devem substituir. São diferentes no que os distingue, mas iguais na essência, na razão da existência e no que os liga e une para sempre como afortunados pela dádiva que receberam.

A todos os pais noviços e aos outros que em breve se irão alistar, felicito-os pela oportunidade que vão ter, de ver a vossa vida mudar e de poderem ser o exemplo para gente que vos vai seguir e amar, que verá em vocês um herói, alguém para idolatrar. Não receiem o fracasso nem se assustem com o que ouvem por aí dizer. Sigam o vosso instinto, aquele que alguns tolos dizem que é coisa de mulher, e façam sempre o vosso melhor, porque como pai terão a oportunidade de estar onde é preciso, de acompanhar, participar, ver crescer e sobretudo amar os vossos filhos.

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