O dia em que renasci para a vida, aos 40 anos

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Crónica publicada no jornal Público, no dia 18/08/2020.

Pode ser consultada online aqui


Se querem realmente mudar, não tenham medo de o fazer. Não são precisos muitos planos, tudo estudado ao pormenor sem deixar espaço ao imprevisto, porque da surpresa vem muitas vezes a alegria

Habituamo-nos a viver a vida que temos e levamos tempo a perceber se nos falta alguma coisa. Somos educados para lutar, para não desistir e procurar um lugar onde esteja a nossa felicidade, com alguém ao nosso lado, uma casa para morar, um emprego para fazer carreira, amigos, diversão e um dia os filhos à nossa beira.

Este é modelo de vida mais vendido em gerações de pais preocupados com o futuro dos seus filhos, que não lhes falte nada e que possam assim desfrutar de tudo o que a vida tem para oferecer. Muitos fazem das tripas coração e dão o que lhes custa a ganhar só para ajudar os filhos em crescimento, para terem o seu primeiro pé-de-meia, o seu primeiro sustento.

Depois, os filhos escolhem o que querem fazer e muitos realmente não desapontam os pais, seguem os seus conselhos e de outros antigos e tornam-se os modelos de vida ideais. Mas a vida não é formatada, a vida não segue nenhum padrão, a vida acontece a cada um como tem de acontecer e alguns percebem um dia que não é assim que querem viver.

Eu renasci para a vida no dia em que percebi o que me faltava fazer, queria voltar a acreditar em mim e nos sonhos que um dia deixei ficar para trás: ser escritor, artista, inspirar os outros, um sonhador. Acreditar que podemos fazer mais do que me ensinaram que podia fazer porque só assim me fazia sentido realmente viver.

Tinha 40 anos, hoje tenho mais cinco, e resolvi abdicar do que tinha, estatuto, carreira e uma profissão que na verdade não era minha. Louco para alguns, corajoso para os demais, segui em frente na minha crença de ser um exemplo, de inspirar os meus filhos e quem sabe até os meus pais.

A relação estremeceu e não conseguiu manter-se firme e continuar, mas longe dos dramas que se ouvem por aí contar – fomos amigos até no terminar. Hoje continuamos solidários na educação de quem brotou de nós, num modelo de família diferente, onde conseguimos estar, ser felizes, prevalece o respeito, um carinho abissal e todos têm a sua voz.

Na senda do meu sonho, vou fazendo o que sempre quis fazer, faço a arte que inspira, escrevo tudo o que transpira e embrenho-me no que sinto que é de valor. Procuro estar em paz comigo, ser uno, autêntico, verdadeiro, o meu melhor amigo e confio na vida e nas oportunidades que ela me dá.

Por isso posso afirmar, a todos os que querem realmente mudar, que não tenham medo de o fazer, não são precisos muitos planos, tudo estudado ao pormenor sem deixar espaço ao imprevisto, porque da surpresa vêm muitas vezes a oportunidade e a alegria de poder fazer um dia aquilo que sempre sonhaste e não ousaste acreditar.

É um percurso longo que não termina com a primeira mudança porque assim que começas a mexer na tua vida, fecham-se portas aqui, abrem-se outras ali e tudo o que vês crescer pode realmente dar esperança de ser um novo caminho que vais seguir, de algo que vais experimentar. Mas não tentes colocar tudo de novo numa caixa, de lhe pôr um rótulo e de a fechar.

Se algum dia renasceres para a vida como eu renasci, aprende com o passado e não tentes copiar a vida de ninguém. Faz as tuas escolhas, conscientes, responsáveis, mas ousadas e loucas como sempre quiseste fazer. Rasga as check-lists que conheces e constrói a tua vida para seres um exemplo para alguém.

Um dia, quando chegar aquela hora fatídica, todos sem excepção vamos olhar para trás, pensar no que fizemos da vida, do que fomos capazes. No meu caso, agora faço todos os dias a vida que quero e sinto vontade de fazer, por mim e pelos que amo. Quero inspirar. Se um dia percebi que queria renascer para vida, fazer mais, melhor e diferente, hoje sei que consigo fazer por isso, dando tempo e espaço à vida para acontecer, sendo honesto com a minha alma e o meu ser, observando tudo o que me rodeia e aceitando esta forma livre de viver.

2 Responses

  1. Sandra Montez

    Este artigo, que já tinha lido há uns dias, no Público, chegou às minhas mãos no momento em que também me questiono sobre o que fazer da vida. A pandemia tirou-me o trabalho e deu-me o tempo que me estava a faltar para parar. Parar e pensar se aquela era a vida que eu, de verdade, queria continuar ter. Era sem dúvida uma vida que me trouxe conforto financeiro ao longo de quase 23 anos e alegadamente alguma felicidade mas tirou-me tempo e alguma saúde. Esta pausa no trabalho está a mexer águas profundas em mim. De todos os lados me aparecem livros, artigos, pessoas inspiradoras e amigos de longa data que vivem uma vida simples onde eu (imagine-se!) fui o gatilho para o trilho de partida que iniciaram ainda na adolescência. Estas palavras inspiraram-me e irei relê-las cada vez que começar a equacionar os pontos fortes e menos bons de uma decisão menos consensual. Grata, Zacky.

    • admin

      Olá Sandra! Agradeço as palavras e a partilha da sua história. Escrevo com o objetivo de poder inspirar e ajudar outras pessoas ao autoconhecimento e a uma vida mais consciente e equilibrada com tudo aquilo que nos rodeia, e sinto-me bem em saber que pude ajudar. A vida deve ser evolutiva e permitir que possamos viver novas experiências e ter acesso a novas aprendizagens, renovando as nossas escolhas e não dando nada como definitivo ou adquirido. Espero que essa fase de mudança possa ser produtiva e relembro que somos sempre nós que sabemos o que é melhor para o nosso bem-estar. Pode haver quem queira ajudar mas as decisões e as escolhas serão sempre as nossas. Tudo de bom! Obrigado 😉

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