É preciso fazer pela Vida

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É preciso fazer pela vida!

Todos os dias ouvimos este sermão, dito sem maldade, por quem percorre a cidade em correria, porque se levanta cedo a cada novo dia para cumprir a sua missão, a responsabilidade pela sociedade, por manter viva a nação, por seguir as normas, a doutrina e a tradição, de que é preciso trabalhar arduamente para juntar o seu quinhão, ter casa, família, status e profissão, e poder pagar a educação aos seus filhos e aos dos outros, da nova geração, que vai herdar tudo isto e também este sermão.

É preciso fazer pela vida induz o dever de continuamente procurarmos algo mais, como filhos do descontentamento, da liberdade que enganosa nos conduz no mesmo trilho, mês após mês, ano após ano, porque a felicidade é apesar de tudo um engano e nunca está onde julgamos estar, onde nos custou tanto chegar, que não devemos estar muito alegres e sorrir e gargalhar, porque quiçá logo ali sem pejo ou preocupação alguém nos chama a atenção e desinspirada e repetidamente nos diz… alto lá, é preciso fazer pela vida!

Porque não é fácil ignorar e fazer ouvidos de mercador a mensagem acaba por passar e baloiça então diariamente ao sabor da ditadura que nos impõe continuar e não parar para degustar a vida, a bola de berlim, a areia salgada, o azul do mar, o jogo do elástico, as escondidas e a apanhada em qualquer lugar, recordações de infância quando se podia sonhar e brincar todo o dia, como se não houvesse amanhã, que não havia, porque ninguém contava o tempo passar entre sorrisos e alegria, das zangas e do já passou com drama, de não fazer muitos planos e ter poucas ilusões, sofrer de amor passageiro pelas fugazes paixões, e não saber ainda que um dia iríamos almejar congelar o tempo, não querer crescer e ver perpetuar o momento, porque desconhecíamos que seríamos tatuados com uma ferida permanente e que alguém nos iria impor que temos de fazer pela vida, porque é assim que se faz gente.

Tem sido assim que chegámos aos dias de hoje, às sociedades que temos e onde sobrevivemos cheios de vontade em não desistir de viver e continuadamente erguer os punhos e lutar, de fazer das tripas coração para encontrar e não perder o nosso lugar, aquele que nos dizem que é nosso mas que temos de ciclicamente conquistar, e empurrados pelo medo em ficarmos sós, estarmos de fora e perdermos a voz, negamos a oportunidade de ousar arriscar e fazer diferente, de ser mais eu e menos gente, para seguir o plano de ser alguém, com a bitola que todos têm, sem originalidade mas com segurança, que nada vai falhar ao que convém, porque quem espera sempre alcança e se lá não chego dizem que não sou ninguém.

É preciso fazer pela vida dá uma ideia errónea que ela não faz nada por nós, que vive às nossas custas e tem pensamento atroz, que temos que a ajudar a sobreviver, a estar no caminho certo para que não se perca e não nos leve ao deserto, para não sermos consumidos pelo calor e pela secura, assombrados por alucinações de liberdade e vida pura, sem regras e padrões, vontade de construir os nossos próprios guiões com confiança e bravura, e sermos levados à loucura se entretanto nos conseguirmos recordar, de outras vidas ou lugares distantes, que afinal a vida também faz alguma coisa, muito mais do que podemos ignorantes julgar, porque para eu existir ela tem de cá estar e a sua sabedoria não é ciência, mas que para tal magia acontecer só é preciso saber abrandar, baixar o ritmo frenético, e dar tempo ao tempo para ela nos poder alcançar.

Impõe-se o exílio do “é preciso fazer pela vida”, como discurso de perigosos efeitos permanentes, que vicia e causa dormência, provoca insónia e sonolência, destrói ideias e coisas que sentes, e porque é preciso ter novo lema e nova voz, que se diga que “é preciso deixar a vida fazer por nós”, deixar que ela nos conduza, entregar-lhe a liderança, assumir esse risco, ser parceiro e ter confiança, receber o que chega sem ficar assustado, sendo bom, mau ou não saber o que dizer, faz tudo parte deste Mundo e acontece o que tiver de ser…, e se com tanta doutrina e educação há ancestrais ensinamentos valiosos, realçar em particular um que é muitas vezes esquecido…, se sabemos reclamar quando nos falta o que queremos ter, também devemos honrar tudo aquilo que nos é concedido.

Os tempos já foram e as virtudes também, em que o ser humano puro e insano, parecia ter maior e profunda sabedoria, deixemos por isso a vida em paz, a fazer o que é capaz, enquanto nos focamos em recuperar novo fôlego, alento e alegria.

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