Hoje não vi morrer ninguém

posted in: Destaque, Photos, Texto | 0

Devem ser tempos bons os que vivemos, com mais harmonia, saúde e alegria pois já não me lembro da última vez que vi morrer alguém.

Não é que esteja muito afetado por isso, ou até preocupado, mas venho-me habituando desde há algum tempo a todos os dias ver morrer alguém.

É estranho não ouvir falar de sangue e violência, de estar sentado e não ver as pessoas em fuga descontrolada, por entre ruínas e explosões, na histeria de gritos e pedidos de ajuda moldados pelas jornalísticas edições, enquanto seguro a cerveja ainda agradavelmente gelada.

Ver os rios de gente perturbada, imaginar o sofrimento que podiam estar a sentir, cerrar os lábios, respirar fundo e por respeito ficar em silêncio apenas a ouvir. Sonhos desfeitos de famílias felizes, pais que perderam filhos petizes, órfãos de pai ou mãe que ficaram sós sem mais ninguém, pessoas de carne e osso como eu que têm o direito a uma vida digna, com paz, harmonia e liberdade, tal como eu também na minha cidade.

Empurrados de um lado para o outro ninguém os quer aceitar, é muita gente dizem sempre alguns como se a quantidade fosse medida, fosse regra a aplicar. Porque a terra é de todos e não é de ninguém, as fronteiras humanas criam desdém e ilusão, de que uns podem e outros não, quando nos esquecemos tão depressa que por aqui onde pisamos já passaram muitos mais, antepassados do homem e outros animais, e se todos pensaram assim, um dia isso esfumou-se em pó, quando a vida terminou, porque na morte somos todos iguais.

Nem a fome que matava tanta gente parece ainda existir. Fico melhor por saber que afinal está a acontecer a bondade entre as nações, que as ajudas chegaram às populações e que estamos a construir novas fundações, para erguer pilares de igualdade, justiça e fraternidade para as pessoas de todas as raças e religiões, com um verdadeiro exemplo para as novas gerações de que o Mundo pode ser ainda melhor.

Penso que também já não haja doenças mortais para além do vírus do momento presente em todo o lado, que chegou e não quer ser deportado. Veio para reinar, assumir o seu lugar, e só ele parece existir, sem rival à altura que o possa destronar está forte na luta contra o Homem que teima em resistir e querer ficar.

Nos dias gordos via várias pessoas diferentes a morrer. Era um exercício difícil ter de escolher onde centrar a minha compaixão. Crimes horrendos de despeito, falta de amor ou traição, macabros por vezes, levados ao pico da indignação, acidentes fatais, quedas abruptas, viagens que começam felizes e se revelam mortais, e miséria, muita miséria também, olhar em redor na minha casa e ver o que tantas pessoas não têm.

Mas afinal que dia é hoje? Será especial? Que data digna de apontamento e festejo se apossou da minha pacata vida sem que eu saiba?

Tenho percorrido os mesmos caminhos, as mesmas ruas, apesar de tudo menos que o habitual, mas quando falo com os outros vivos do costume já não temos assunto nas mortes e nas tragédias o que não é normal. Se ninguém vir os outros morrer quem é que vai falar deles? Se eu morrer quem é que vai falar de mim? Será que a honra se vai perder no esquecimento de quem partiu e os que ficam vão continuar a viver tranquilamente, a ser gente feliz sem direito à indignação?

Até o respeito já parece existir como valor fundamental na sociedade, e atrevo-me a dizer que já não há exploração, violação, ou comportamento imoral neste momento feliz da Humanidade. É como se de um sonho elaborado um novo Mundo fosse traçado e no novo amanhecer tudo ganhou forma, vida, e está mesmo a acontecer.

Herdei de vidas passadas a esperança de um dia poder sentir-me assim, consciente que estamos a aprender a evoluir, cultivando o gosto pela beleza de viver, saber estar e saber ser o reflexo do que queremos sentir. O bem-estar agrada a todos sem exceção e é sempre o ponto de retorno após qualquer turbilhão.

Começo a pensar se haverá algum problema geral porque nada disto é mesmo normal. Será que é muito grave e vai tudo acabar?

De repente volta a luz e ilumina-se o pensamento. Abro os olhos e vejo onde estou, a televisão acendeu-se e a internet regressou. Cinco dias depois voltaram os telejornais e as redes sociais, os programas da vida, a imaginação, o faz de conta, o pode ser que eu também consiga, e de novo o Mundo que eu conhecia apareceu. Estão lá as mortes, a guerra, a miséria e a violência, e a oportunidade de à distância voltarmos a ser solidários sem ter vivido a consequência. Continua a nascer gente, a haver amor, exemplos positivos que ninguém quer saber, vendem pouco, têm pouco sangue e não dão lucro para fazer render.

Espero mais um pouco para ver se pelo menos o respeito é real, pelo menos isso, mas percebo pouco tempo depois que não porque ainda há abusos, agressões e tantos exemplos de comportamento irracional.

Desligo tudo em meu redor e volto a fechar os olhos para retomar o sonho que venho construindo há algum tempo. Abraço os meus filhos e faço-os sorrir, ouço a voz dos que me amam e deixo-me ficar, no silêncio abraço a minha família com o olhar e todos os que conheço, tenho estima e sei que quero continuar a ver. Alimento a energia que me faz sentir vivo e merecedor de paz, acredito em mim e que serei capaz de unificar o meu Mundo, a minha gente, aquela que mexe comigo e a quem não sou indiferente, pelo exemplo, pela atitude, pela honestidade de aceitar que não estamos sós, e apesar da voz, somos parte silenciosa da infinita e magnífica universalidade.

Ainda é estranho para muitos que nem conseguem aquietar o pensamento, mas num dia como hoje, com sol e calor de verão, na praia ou campo com uma bebida fresca na mão, todos juntos, estaremos em sintonia, a poder viver este momento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *