Amor para Todos

posted in: Destaque, Texto, Uncategorized | 0

Diz-se por aí que o amor pelos filhos é o mais precioso de todos, daqueles que são pais e puderam assumir esse papel desafiante, fascinante e único.

Diz-se que é assim, mas é preciso ter noção que os filhos que amamos, que acolhemos e cuidamos, que educamos e ajudamos a criar, não são verdadeiramente nossos nem de ninguém, para além deles próprios.

Damos-lhes um corpo, as nossas células, entregamos-lhes o nosso ADN e deixamos ficar tudo nas mãos da vida, e um dia conhecemos o resultado e o amor então gerado ficará sempre ao nosso lado para nos fazer companhia, honrar a nossa existência, e alegrar o nosso dia.

Mas um dia os filhos, os nossos adorados filhos, deixarão de depender de nós para comer, para andar, para se vestir ou para estudar. Serão as primeiras lágrimas de alegria porque eles estão a crescer, a ser autónomos, a saber viver, quando nos confrontamos com a ideia que um dia iremos partir e vamos deixar de os ver, na ilusão do abandono que abalroa o nosso cantinho, invade o nosso peito e destrói aquele jeito de amar, de querer tudo de bom para eles, de sempre mas sempre estar ali por perto, e de a todo o momento os poder amparar.

Não é fácil viver a emancipação como pais, agora do lado de cá da vontade infinita de saber mais, de ser dono de si, desafiar e ter os seus ideais, de conquistar o Mundo e tudo o que ele tem, de não cumprir as regras nem ouvir mais ninguém, de viver os amores, de escolher os amigos e ter dissabores, de ser gente crescida e em qualquer momento poder parar e gritar, sem ter de obedecer se nos mandarem calar.

Dizem que o amor pelos filhos é o maior que alguma vez poderemos ter, mas talvez não seja justo se estivermos a pôr de lado o amor pelos nossos pais.

Quem deu o que nós demos também, para podermos existir, para ser alguém, e neste Mundo poder chorar e sorrir…, trocou horas de lazer pelo embalo, para nos nutrir e fazer crescer, acalmou a nossa dor com mimo e ternura, com abraços e candura, quem nos amou como agora sabemos amar, essa gente…, essas pessoas maravilhosas, merecem hoje e sempre o nosso amor incondicional.

Os nossos pais no passado, como nós no presente e os nossos filhos no futuro, são gerações diferentes de uma mesma experiência divinal que não encontra par igual. O amor pelos pais e pelos filhos deve ser equipolente, para honrar a existência de ambos, agradecer o que fazem por nós e tudo o que são, para podermos estar e viver o nosso caminho de evolução.

Dizem então que o amor que podemos sentir pelos nossos pais e pelos nossos filhos será o maior amor que podemos ter, que sabemos expressar e que não há outro que se lhe possa igualar. Mas então e nós? Onde fica o amor por tudo o que somos, pela existência que sabemos ter, pela autenticidade que outros admiram às vezes até sem bem nos conhecer, e que é a essência de mim, aquilo que trouxe e não pedi a ninguém, aquilo que me expõe, que gera amor e ódio com igual fundamento e que às vezes não sai para lado nenhum e vive sempre no meu pensamento.

Se sou capaz de amar sem reservas pai e mãe, filhos meus e de outros também, apenas porque é assim, tenho de conseguir repartir esse amor também para mim e ser o primeiro a reconfortar a minha alma quando ela precisa de uma palavra amiga e a abraçar o meu corpo quando ele pede um toque, um carinho suave.

O amor-próprio deve ser o primeiro amor que aprendemos a sentir e a conhecer e aquele que jamais, em tempo algum, devemos esquecer.

Ser capaz de me aceitar como sou, de honrar a minha forma e o meu feitio, e tal como o filho que ajudamos a educar para ser alguém, saber dar espaço a mim mesmo também, para errar, aceitar o falhanço e continuar a tentar. Entender que para amar os outros sem reservas e com respeito, preciso de o fazer comigo em primeiro lugar, no meu peito.

Aceitar todos os diferentes amores, que afinal são apenas um só, em tempos diferentes e com vestes distintas, é reconhecer a versatilidade da minha existência e o papel que tenho em cada momento entre o aprender e o ensinar, dando aos meus pais e aos meus filhos o mesmo que dou a mim, percebendo que esta harmonia é a forma equilibrada de ser gente, que não há maior ou menor, há diferente, e que cada pedaço meu deve poder sentir, dar e receber o amor que existe por aí para distribuir.

Porque a todo o tempo sou sempre eu, ora pequeno e frágil, ora grande e autoritário, na tentativa de me enquadrar e superar o desafio, porque o amor começa sempre em mim e porque de mim parte para outros lugares, onde escolho atracar, viver um tempo e até procriar, porque sempre chegará a hora da partida, que tal como na chegada será um momento de emoção, que eu possa com um sorriso no canto do lábio dizer… “foi bom, vivi, amei tudo e todos que tinha para amar e agora estou pronto para morrer.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *