Nova Geração

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Não é fatalismo mas está na hora de começar a pensar que as sociedades humanas de hoje vão mesmo ter o seu fim.

Existimos na Terra há mais de 300 mil anos mas, segundo a informação disponível que circula entre nós, só há cerca de 8 mil anos conseguimos criar formas de nos organizar e viver em grandes aglomerados, com regras e normas de controlo e harmonização das multidões.

Sem querer questionar, não deixo de estranhar que antes desse tempo não tivesse havido também formas de organização conjunta dos seres humanos em centenas de milhares de anos de existência. Nunca o saberemos, ou talvez um dia as teorias atuais se refutem a si mesmas como sempre tem acontecido ao longo dos tempos e as gerações futuras se riam da nossa presunçosa ignorância de hoje.

Nos últimos 200 anos temos vivido uma época de desenvolvimento avassalador e se pensarmos nos últimos 60 estamos a galopar a toda velocidade no progresso sem tempo de “pôr bem o pé” a cada nova passada.

A situação que vivemos hoje era impensável para a maioria de nós porque poucos paravam para pensar no mundo em que vivíamos. Agora, enquanto escrevo, já devem estar a acontecer coisas que merecem atenção, pelos hábitos que criámos ou nos criaram, e que temos de constantemente alimentar e por isso pode não haver tempo para ler o texto até acabar.

Nalguns países do Mundo, sobretudo os mais desfavorecidos e com maiores dificuldades, a pandemia global está a surgir com atraso e é apenas mais um problema a juntar a tantos outros igualmente graves, sem que haja preocupação ou capacidade de aferir este novo impacto.

Nos mais desenvolvidos, porém, a braços com situações críticas de saúde pública, e após semanas de paragem forçada, a saúde e a sobrevivência humana estão agora em segundo plano quando a atenção está toda focada na recuperação da economia e em tudo o que ela representa.

Não podia ser de outra forma porque qualquer mudança tem de ser primeiro ponderada. A alternativa agora tem de ser esta, de pegar ao colo na economia e ajudá-la a dar os primeiros passos, criar força e músculo para que se possa equilibrar e esperar que rapidamente possa andar sozinha. Mas é preciso também saber ver o que aí vêm. É uma questão de tempo até ao colapso das sociedades que existem e à necessidade de se criarem novas formas de vivência humana em conjunto.

Construir um castelo de cartas leva muito mais tempo do que o sopro suave que acaba por o destruir. Quem conseguiu parar um pouco, na quarentena de reflexão, percebeu a fragilidade que esta crise global veio demonstrar. Ainda há muitos que acreditam que tudo se pode resolver e porventura terão razão, com esforço, entrega e dedicação os seres humanos são capazes de muito, muito mesmo, mas neste caso a fragilidade da sociedade atual não terá uma solução com futuro.

Porque não somos todos iguais, porque somos sete biliões e meio de pessoas e vivemos em muitas nações independentes e soberanas, porque muitos são propositadamente mantidos ignorantes e vivem acomodados e formatados aos interesses que acabarão por surgir, porque a nossa segurança e sobrevivência vêm sempre em primeiro lugar, e porque na hora de fugir olho apenas para mim e para os que me rodeiam e não tenho braços para mais ninguém.

Ninguém vai continuar a viver como dantes.

Uns irão piorar e outros irão melhorar, muitos irão sofrer e não vão aguentar, outros saberão entender e saber aceitar, muitos e muitos vão lutar, guerrear e continuar a espernear pelo seu lugar, mas esta época da história da humanidade vai ter mesmo de se encerrar.

Sem previsão ninguém pode afirmar quando será, está fora do nosso controlo como sempre esteve tudo o que tinha a ver com a nossa vida. A ilusão ditou este crescimento exacerbado, agora nesta perspetiva, descontrolado, e talvez tivesse de ter sido assim, e não tenhamos sido os primeiros nem seremos os últimos.

Há muito de bom que merece continuar, que vai certamente recuperar, e a natureza humana conseguirá sobreviver…, mas para isso é preciso entender, saber aceitar, perder a obsessão de criar regras, etiquetas, e querer controlar, enfim… é preciso perceber que teremos de nos adaptar.

Daqui a algumas centenas ou milhares de anos ainda haverá humanos na Terra. Tudo tem o seu momento e passa, e na magia do tempo perde a sua importância no infinito Cosmos Universal que serenamente observa estes fenómenos.

Talvez nessa altura outros nos vejam como nós fizemos para as outras civilizações. Seremos exemplos de ascensão e queda, de desenvolvimento e progresso, de caos e renovação. Sem drama seremos estudo de caso nas doutrinas escolares e estudantis, como sinónimo de resiliência, de aprendizagem e coragem, e serviremos de inspiração para grandes romances, filmes e peças de teatro.

O mundo não vai acabar, mas estas sociedades vão e o tempo está a terminar.

É um final difícil de escrever porque a dor ainda machuca quem não conseguiu ver, são crenças fortes e amarras seguras que alimentam a bolha da ilusão, de quem só quer viver tranquilo e não quer confusão. Mas a escolha não é opção, como o vírus também não, e o fim que aí vem é o começo de uma nova geração.

É hora de entender o que está a acontecer, e não esperar pelo noticiário para ficar a saber…

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