O tempo que não se dá a ninguém

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Porventura com a melhor das intenções, sem que seja por mal, tem surgido um pouco por todo o lado, por parte de organizações ou de particulares, propostas de ocupação do tempo que estamos a passar mais em casa neste momento, e que pretendem ajudar-nos a ultrapassar melhor, num conceito de utilidade, este momento global de recolhimento que o Mundo tem vindo a atravessar.

Este fenómeno, compreensível na medida em que existem áreas e setores de atividade que cresceram no leito do nosso ócio, dando vida aos momentos de descanso que muitos obtinham com custo, por entre a, agora cada vez mais distante, vida de luta diária que se vivia no dia-a-dia, parece-me, porém, agora algo desligado daquilo que é a energia que se sente emergir no planeta.

Esta coisa das energias pode não ser clara e objetiva para toda a gente, mas é algo que a maioria consegue sentir e que já antes do Covid-19 se fazia notar quando a pessoa era capaz de dar atenção aos sentimentos que tinha acerca de uma pessoas, pessoas, ou lugares que a rodeavam.

Um parêntesis para referir que penso que teremos que nos habituar a falar de um novo marco na história da Humanidade separando o que era a vida antes e depois do Covid-19, tal como em tempos se fez com o nascimento de Cristo. Assim diria que vamos passar a ter o Mundo antes AC19 (antes do Covid-19) e o DC19 (depois do Covid-19).

Regressando ao tema, muitas destas propostas de ocupação do tempo seguem ou incrementam, numa extensão agora digital ou virtual, aquilo que já existia AC19 e que inundava a nossa rotina de lazer, criando em muitos de nós ansiedade e frustração de, perante uma oferta tão diversificada e com qualidade assente nos gostos individuais, não conseguirmos ver ou fazer tanta coisa por falta de tempo ou de dinheiro para gastar.

Esta forma de pensar assente na satisfação por via do exterior, numa cultura de posse e do que podemos obter a partir de outros, é exatamente aquilo que nos conduziu enquanto sociedade moderna ao declínio que muitos vaticinaram que um dia poderia vir a acontecer.

A evolução e progresso que temos vindo a presenciar nas últimas décadas aumentou de forma inversamente proporcional à capacidade de o homem depender apenas de si para obter satisfação e de, desse modo, poder controlar o seu estado emocional de felicidade e a sua alegria na forma escolhida de viver a vida.

Isto quer dizer que hoje muitas pessoas tem dificuldade de se satisfazer a si próprias, com recurso apenas às admiráveis capacidades que possui o cérebro e o corpo humano no seu todo, e que essa função é frequentemente delegada na oferta que recebem do exterior que, na maior parte dos casos, é pensada para satisfazer as necessidades individuais naturalmente existentes ou artificialmente criadas.

Para os que já perceberam o meu raciocínio, parece-me que neste momento o que muitas pessoas precisam não é de encontrar forma de “passar o tempo” que estão a ter a mais em casa, ligado a programas de hábitos, gostos e rotinas antigas do AC19, mas de descobrir a qualidade que esse tempo pode ter assumindo diretamente a responsabilidade por ele e recuperar para si a capacidade de definir aquilo que verdadeiramente a satisfaz, aquilo que lhe traz prazer e alegria e que de alguma forma pode conduzir a mais momentos de felicidade.

Se tanto tem sido dito sobre esta ser uma época global de recolhimento, de reflexão, de dar valor ao que nos é importante, de estar com a família, de recuperar tempo perdido das exaustivas rotinas do passado, de auto-conhecimento, de descobrir novas formas de estar na vida e dar sentido ao que todos os dia nos move, se realmente é isso que se pretende fazer, então não se podem continuar a ter apenas os mesmos hábitos antigos, a fazer as mesmas rotinas, a ver os mesmos programas (agora muitos também em formato digital), a ler os mesmos livros, a ouvir as mesmas conversas, a seguir as mesmas páginas e blogs, e no fundo a repetir tudo aquilo que se fazia antes mas cujo tempo na altura era insuficiente.

Parece-me que muitos sentem este momento realmente como uma oportunidade de repensar, nem que seja apenas isso, as escolhas que vinham fazendo, as ações que vinham tendo e as consequências que elas geravam, e se for este o caso, então esse exercício faz-se no silêncio, sem distrações, sem sequências digitais ou mecânicas programadas para o entretenimento, e apenas com recurso ao nosso pensamento ao nosso intelecto e à capacidade de cada um conseguir dialogar consigo mesmo.

Este é o tempo de parar que no AC19 não era permitido para a maioria das pessoas que viviam na azafama da realidade mutante. Este é o tempo que muitos clamavam que se conseguissem ter, por certo fariam mudanças na vida porque conseguiriam pensar melhor e refletir sobre a sua vida. Este é o tempo que se falava romanticamente ser preciso existir para que globalmente pudéssemos mudar o Mundo. Pois bem este tempo existe agora para a maioria de nós.

Não esquecer que mesmo assim, em todo o Mundo, todos os dias há homens e mulheres que não pararam e que estão na linha da frente a lutar para salvar vidas, para manter a ordem, para garantir os serviços básicos da sociedade, entre outros que continuam a sua vida com ritmos acelerados, e para todos eles ainda não existe verdadeiramente no horizonte o DC19.

Esses são os que terão a tolerância da sociedade para o poderem fazer mais tarde, depois da acalmia, passada a euforia, do momento e das homenagens, quando muitos outros estiverem perante a agonia de ter de tomar decisões de regressar ao passado que porventura já não os seduz, depois de terem descoberto dentro de si, alguém que verdadeiramente amavam mais do que ninguém, se tiverem a coragem de realmente dar valor ao tempo que agora têm.

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