Desculpem lá miúdos

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Cada dia que passa estou a viver mais mas ao mesmo tempo também estou a morrer mais…, depende da perspetiva e da leitura que faço.

Mas cada dia que passa também estou a matar um pouco mais o planeta e aqui não há outra perspetiva.

A natureza sofre todos os dias pelas minhas ações e os meus filhos vão herdar estes sítios, onde hoje passo e faço estragos, para viver a sua vida.

Desculpem lá miúdos…!

Vão ter menos ar puro do que eu tive, menos água limpa para tomar banho na praia e até para beber, e não vão conhecer certas espécies de animais e plantas que eu conheci e entretanto vou ajudar a exterminar.

São mais as coisas que vão ter a menos do que aquelas que eu ajudei a construir.

É assim a vida, desculpem lá miúdos!

Este pensamento assola-me muitas vezes, mas depois passa e fica tudo na mesma.

Uso o automóvel quase sempre e faço ruído e poluição.

Faço lixo todos os dias e ajudo a poluir os solos e os mares com resíduos que não são biodegradáveis.

Acredito na reciclagem e por isso continuo todos os dias a separar os lixos e achar que com isto já faço o suficiente.

Gasto mais água e energia do que devia e não penso que um dia estes recursos podem mesmo faltar.

Ainda deve dar para vocês miúdos!

Uso produtos agressivos para o meu corpo e para o ambiente, na limpeza, na higiene e nos meus cuidados diários.

Faço-o conscientemente, e culpo as grandes empresas que produzem e comercializam estes produtos e que nos dão poucas hipóteses de escolha.

Aponto o dedo à sociedade em que vivemos e ao consumismo que se instalou, e que como uma praga doentia se alastrou a todos nós.

Desligo mais a televisão, e vejo menos noticiários, mas sei que continuam impregnados de notícias tristes e histórias violentas e negativas com grandes níveis de audiência.

Fecho os olhos, lamento, mas afinal não é nada comigo.

Penso que seria bom mudar isto mas não faço nada porque é difícil.

É certo que tenho liberdade de ação, voz, pensamento, informação e conhecimento para aceder a todos os sítios onde estão as pessoas que decidem este tipo de coisas e onde se criam as regras das sociedades.

Tenho tudo isto mas dá muito trabalho e por isso, quase sempre, não faço nada com este poder.

Continuo a repetir estes rituais todos os dias e com isso continuo a viver mais, a morrer mais, e a matar mais o planeta, numa perspectiva única de sentido único.

Desculpem lá miúdos…!  Quando chegar a vossa vez façam melhor!

Estou sem tempo agora…

Escrito por uma pessoa qualquer, de uma cidade por aí, num smartphone topo de gama, enquanto segue de Uber para um jantar de amigos.

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